Reportagem
  
edição 31 - Dezembro 2004
A caverna onde a arte nasceu
As datações dos desenhos da gruta de chauvet, na França, subvertem as idéias que prevaleciam sobre a pintura pré-histórica - ela teria nascido mais cedo do que se imaginava e atingido rapidamente a maturidade
por Hélène Valladas, Jean Clottes e Jean-Michel Geneste
Os animais desenhados na gruta de Chauvet têm aparência bastante realista.
Poucas ferramentas tiveram tanto impacto sobre a arqueologia quanto a datação por carbono-14. Usando o índice de desaparecimento de uma forma radioativa de carbono, o método permitiu datar diretamente objetos antigos de origem orgânica e, em muitos casos, modificou profundamente nossa percepção sobre a evolução cultural de nossos ancestrais.

Um exemplo disso é o estudo recente da gruta de Chauvet, no sudoeste da França, e seu complexo de desenhos, pinturas e gravuras da Idade do Gelo. O uso do carbono-14 recuou a data de surgimento da arte das cavernas - as imagens de Chauvet são cerca de 10 mil anos mais velhas do que se imaginava - e mostrou que ela se expandiu rapidamente a partir de começos relativamente simples. Essa datação antiga causou tamanho espanto que suscitou incredulidade, críticas e controvérsias. É assim com as descobertas, mas hoje a antigüidade de Chauvet é inconteste.

Datar a arte da gruta com precisão só foi possível porque, no fim dos anos 1970, o método do carbono-14 passou por uma pequena revolução. Trata-se do desenvolvimento da espectrometria de massa por acelerador, cuja principal vantagem é o tamanho das amostras que é possível analisar. Menos de 1 miligrama de carbono basta, ou seja, cerca de mil vezes menos do que na técnica clássica por contagem radioativa. Dessa forma, centros de pesquisa como o Laboratório de Ciências do Clima e do Meio Ambiente em Gif-sur-Yvette (França) conseguiram datar amostras minúsculas, ou que, por serem preciosas e raras demais, não podiam ser muito deterioradas. É o caso das pinturas pré-históricas e dos desenhos realizados nas paredes das cavernas, ou arte parietal, como a chamam os arqueólogos.

Cronologia Parietal
O estudo da evolução da arte parietal se baseou por muito tempo na análise estilística das representações, ou na datação de vestígios encontrados na proximidade das paredes decoradas e supostamente contemporâneos dos desenhos. Com essa abordagem, pesquisadores como o abade Henri Breuil (1877-1961) e André Leroi-Gourhan (1911-1986) propuseram cronologias para as grutas decoradas da França (Lascaux, Combarelles, Font-de-Gaume) e da Espanha (Altamira). A espectrometria de massa por acelerador deu um novo impulso a esse estudo da arte parietal.
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