Reportagem
edição 112 - Setembro 2011
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A evolução dos avós
Idosos podem ter sido o segredo do sucesso da nossa espécie
por Rachel Caspari
Rachell Gaspari & Sang-Hee lee
[continuação]

Um abrigo na rocha, localizado na cidade de Krapina, na Croácia, cerca de 40 km a noroeste da cidade de Zagreb, e um desses lugares. Há mais de um século, o paleontólogo croata Dragutin Gorjanović– Kramberger escavou o local e descreveu os fragmentos de, talvez, ate 70 neandertais, a maioria numa camada datada de cerca de 130 mil anos. O grande numero de fosseis encontrados próximos entre si, o acumulo aparentemente rápido dos sedimentos no sitio e o fato de alguns restos compartilharem determinadas características indicam que os ossos de Krapina abrangem os restos de uma única população de neandertais. Como costuma acontecer no registro fóssil, os remanescentes mais bem preservados em Krapina são os dentes, devido ao alto teor mineral que os protege da degradação. Eles também são um dos melhores elementos para determinar a idade da morte pela analise de desgaste de sua superfície e mudanças relacionadas a idade na estrutura interna.

Em 1979, antes de começar a minha pesquisa sobre a evolução dos avos, Milford H. Wolpoff, da University of Michigan, em Ann Arbor, publicou um artigo baseado em restos dentários, avaliando a idade dos neandertais de Krapina ao morrer. Os dentes molares irrompem em sequencia. Usando como guia um dos esquemas de erupção mais rápida observada no homem moderno, Wolpoff estimou que o primeiro, segundo e terceiro molares do homem de Neandertal surgiram em idades que se aproximavam dos 6, 12 e 15 anos, respectivamente. O desgaste pela mastigação se acumula em ritmo constante ao longo da vida e por isso, quando surge o segundo molar, o primeiro já tem 6 anos de desgaste e, ao nascer o terceiro, o segundo tem três anos de desgaste.

Fazendo o caminho inverso, pode-se inferir que um primeiro molar, com 15 anos de desgaste, pertencia a um neandertal de 21 anos, um segundo molar com 15 anos de desgaste, a um individuo de 27 anos, e um terceiro molar com 15 anos de desgaste, a alguém com 30 anos. (Essas estimativas tem margem de erro de mais ou menos um ano.) Esse método de seriação baseado no desgaste para determinar a idade da morte, adaptado de uma técnica desenvolvida pelo pesquisador A. E. W. Miles, em 1963, funciona melhor em amostras com grande numero de jovens, que Krapina tem em abundancia. O método perde exatidão quando aplicado a dentes de idosos, cujas coroas dentarias também podem estar desgastadas em excesso para a avaliação confiável e, em alguns casos, estar totalmente corroídas.

O trabalho de Wolpoff indicou que os neandertais de Krapina morreram jovens. Em 2005, poucos anos apos eu ter começado a pesquisar a evolução da longevidade, decidi dar outra olhada nessa amostra usando uma nova abordagem. Queria ter certeza de que não estávamos perdendo indivíduos mais velhos, devido as limitações inerentes de seriação baseada em desgaste. Trabalhando com Jakov Radovčić do Museu de Historia Natural da Croácia, em Zagreb, Steven A. Goldstein, Jeffrey A. Meganck e Dana L. Begun, todos de Michigan e estudantes de graduação da Central Michigan University, desenvolvi um novo método não destrutivo, usando tomografia tridimensional microcomputadorizada de alta resolução (μCT) para reavaliar a idade dos indivíduos de Krapina, ao morrer. Analisamos o grau de desenvolvimento de um tipo de tecido do interior do dente, a dentina secundaria. O volume de dentina secundaria aumenta com a idade e fornece uma pista para avaliar a idade de um individuo a morte, quando a coroa do dente esta desgastada demais para ser um bom indicador.
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Rachel Caspari Rachel Caspari é professora de antropologia da Central Michigan University. Sua pesquisa concentra-se nos neandertais, na origem dos homens modernos e na evolução da longevidade.
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