Reportagem
edição 112 - Setembro 2011
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A evolução dos avós
Idosos podem ter sido o segredo do sucesso da nossa espécie
por Rachel Caspari
[continuação]

Nossas descobertas iniciais, complementadas por imagens fornecidas pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionaria, em Leipzig, corroboram os resultados de Wolpoff e validam o método de seriação baseado em desgaste: os neandertais de Krapina tinham taxas de mortalidade extremamente elevadas; ninguém ultrapassou os 30 anos. Mas isso não significa que os neandertais não ultrapassassem essa idade.

Pelos padrões atuais, a media de longevidade de Krapina e inimaginável. Afinal, para a maioria, 30 anos e o auge da vida, e os caçadores-coletores ultrapassaram os 30 anos em passado recente. Os neandertais de Krapina, no entanto, não são os únicos entre os seres humanos primitivos. Outras poucas localidades com fosseis humanos com grande numero de individuos preservados, como o sitio Sima de los Huesos, em Atapuerca, na Espanha, com cerca de 600 mil anos de idade, mostram padrões semelhantes. O povo de Sima de los Huesos tinha altos níveis de mortalidade infanto-juvenil, ninguém ultrapassava os 35 anos, e pouquíssimos chegavam a essa idade. E possível que, de alguma forma, catástrofes ou condições especiais em que os restos se fossilizaram tenham selecionado a não preservação de indivíduos mais velhos nesses sítios. Mas as extensas pesquisas no registro fóssil humano que realizamos, inclusive do material desses sítios extremamente ricos, alem de outros que continham menos indivíduos, indicam que morrer jovem era a regra, não a exceção. Parafraseando as palavras atribuídas ao filosofo britânico Thomas Hobbes, a vida pré-histórica realmente era desagradável, brutal e curta.

Ascensão dos avós
esta nova abordagem com a μct tem o potencial de fornecer uma imagem de alta resolução das idades dos indivíduos mais velhos em outros fosseis de populações humanas. Mas, alguns anos atrás, antes de chegarmos a essa técnica, Sang-Hee Lee, da University of California em Riverside, e eu estávamos prontas para comecar a busca por evidencias de mudanças na longevidade ao longo da evolução humana. Lançamos mão da melhor abordagem disponível naquele momento: a seriação baseada em esgaste. Mas enfrentamos um grande desafio. A maioria dos fosseis humanos nao e originaria de sítios como o Krapina, que preservam tantos indivíduos que os restos podem ser considerados reflexo de populações maiores. E quanto menor o numero de indivíduos contemporâneos encontrados em um sitio, mais difícil estimar com segurança a idade dos membros ao morrer, devido as incertezas estatísticas associadas a amostras pequenas.

Mas percebemos que poderíamos abordar de outra maneira a questão de quando os avos começaram a se tornar mais comuns. Em vez de perguntar quanto tempo os indivíduos viveram, questionamos quantos deles chegaram a velhice. Ou seja, em vez de nos concentrar em idades absolutas, calculamos idades relativas e perguntamos qual proporção de adultos sobreviveu ate a idade em que poderia se tornar um avo. Nosso objetivo foi avaliar as mudanças ao longo do tempo evolutivo na proporção de adultos mais maduros e adultos jovens. Entre os primatas e ate bem pouco tempo entre os humanos, o terceiro molar irrompe aproximadamente na mesma época em que um individuo se torna adulto e atinge a idade reprodutiva. Baseadas em informações sobre os neandertais e as populações contemporâneas de caçadores-coletores, inferimos que os fosseis de seres humanos tinham os terceiros molares e o primeiro filho por volta dos 15 anos. Consideramos o dobro dessa idade para marcar o inicio da idade de serem avos – assim como algumas mulheres hoje podem dar a luz aos 15 anos e se tornarem avos quando seus próprios filhos atingirem os 15 anos e se reproduzirem.
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Rachel Caspari Rachel Caspari é professora de antropologia da Central Michigan University. Sua pesquisa concentra-se nos neandertais, na origem dos homens modernos e na evolução da longevidade.
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