Reportagem
edição 112 - Setembro 2011
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A evolução dos avós
Idosos podem ter sido o segredo do sucesso da nossa espécie
por Rachel Caspari
[continuação]

Para nosso objetivo, qualquer individuo arcaico com 30 anos ou mais era qualificado como adulto mais maduro – com idade para ser avo. Mas a beleza da abordagem sobre essa proporção e que, independentemente de a maturidade ocorrer aos 10, 15 ou 20 anos, a proporção de indivíduos mais maduros e mais jovens numa amostragem não seria afetada, pois o inicio da idade adulta mais madura mudaria na mesma escala. Como estávamos tentando classificar os fosseis nessas duas categorias extensas, poderíamos incluir varias amostras pequenas deles em nossa analise sem nos preocupar com as incertezas de idades absolutas.

Calculamos as proporções entre adultos maduros e jovens em quatro grandes agrupamentos de amostras de fosseis, totalizando 768 indivíduos que abrangiam um período de 3 milhões de anos. Um agrupamento compreendeu os australopitecineos mais recentes – parentes primitivos de “Lucy”, que viveu na África Oriental e África do Sul entre 3 milhões e 1,5 milhão de anos atrás. Outro agrupamento consistia nos primeiros membros do gênero Homo, do mundo todo, que viveram entre 2 milhões e 500 mil anos atrás. O terceiro grupo era do neandertal europeu de 130 e 30 mil anos atrás. E o ultimo abrangia os europeus modernos do período Paleolítico Superior inicial, que viveram entre cerca de 30 mil e 20 mil anos atrás e deixaram vestígios culturais sofisticados.

Embora esperássemos encontrar aumentos na longevidade no decorrer do tempo, não estávamos preparados para os resultados surpreendentes. Observamos uma pequena tendência de aumento da longevidade ao longo do tempo em todas as amostras, mas a diferença entre os seres humanos primitivos e os homens modernos do Paleolítico Superior foi um aumento substancial de cinco vezes na proporção de adultos maduros e jovens. Assim, para cada dez neandertais adultos jovens que morreram entre 15-30 anos, havia apenas quatro adultos mais maduros que ultrapassaram os 30 anos; em contraste, para cada dez adultos jovens na distribuição de mortos do Paleolítico Superior europeu, havia 20 potenciais avos. Questionamos se o maior numero de corpos sepultados em locais do Paleolítico Superior poderia explicar o elevado numero de adultos maduros naquela amostra, e novamente analisamos nossa amostra do Paleolítico Superior, usando apenas os restos que não haviam sido enterrados. Mas obtivemos resultados semelhantes. A conclusão foi inevitável: a sobrevivência de adultos aumentou muito tarde na evolução humana.

Biologia ou Cultura?
Agora que sang e eu estabelecemos que o numero de avos em potencial aumentou em algum momento na evolução dos seres humanos anatomicamente modernos, tínhamos outra questão: o que provocou essa mudança? Havia duas possibilidades. Ou a longevidade foi um agrupamento de características geneticamente controladas que distinguia biologicamente os homens anatomicamente modernos de seus antecessores, ou não veio com a aparição da anatomia moderna e foi resultado de uma mudança posterior, de comportamento.

Os homens anatomicamente modernos não explodiram no cenário evolutivo fazendo a arte e os armamentos avançados que definem a cultura do Paleolítico Superior. Eles surgiram muito antes desses europeus do Paleolítico Superior, há mais de 100 mil anos, e na maior parte desse tempo eles e seus contemporâneos anatomicamente arcaicos, os neandertais, usaram a mesma tecnologia mais simples do Paleolítico Médio. (Membros dos dois grupos parecem ter se interessado em fazer arte e armas sofisticadas antes do Paleolítico Superior, mas essas tradições foram efêmeras comparadas as onipresentes e duradouras que caracterizam esse período posterior.) Apesar de nosso estudo indicar que um grande aumento de avos era singular nos homens anatomicamente modernos, isso, por si, não faz a distinção entre a explicação biológica e a cultural, pois o homem moderno para quem olhávamos era moderno em termos anatômicos e comportamentais. Poderíamos buscar a longevidade nos homens modernos anatomicamente primitivos e que ainda não eram modernos em termos de comportamento?
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Rachel Caspari Rachel Caspari é professora de antropologia da Central Michigan University. Sua pesquisa concentra-se nos neandertais, na origem dos homens modernos e na evolução da longevidade.
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