Reportagem
edição 112 - Setembro 2011
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A evolução dos avós
Idosos podem ter sido o segredo do sucesso da nossa espécie
por Rachel Caspari
[continuação]

Para resolver esta questão, Sang e eu analisamos seres humanos do Paleolítico Médio de sítios na Ásia ocidental, datados entre cerca de 110 mil e 40 mil anos atrás. Nossa amostra incluía tanto o neandertal quanto o homem moderno, todos associados aos mesmos artefatos relativamente simples. Essa abordagem nos permitiu comparar as proporções de adultos maduros e jovens de dois grupos biologicamente distintos (que muitos estudiosos consideram como espécies distintas) que viviam na mesma região e exibiam a mesma complexidade cultural. Descobrimos que o neandertal e o homem moderno da Ásia ocidental mostravam proporções de adultos maduros e jovens estatisticamente idênticas, descartando a possibilidade de uma mudança biológica ter sido responsável pelo aumento de sobrevivência de adultos observado nos europeus do Paleolítico Superior. Os dois grupos da Ásia ocidental basicamente tinham proporções semelhantes de adultos maduros e jovens, e os índices ficaram entre as do neandertal e a do homem moderno primitivo da Europa.

Comparados aos neandertais europeus uma proporção muito maior de neandertais da Ásia ocidental (e de homens modernos) viveu ate se tornar avo/avo. Isso não e surpresa: o ambiente mais temperado da Ásia ocidental teria sido muito mais propicio a sobrevivência que as condições ecológicas adversas da Era do Gelo europeu. Mas, se o ambiente mais temperado da Ásia ocidental for responsável pela sobrevivência elevada de adultos observada nas populações do Paleolítico Médio de lá, a longevidade dos europeus do Paleolítico Superior e ainda mais impressionante. Apesar de viver em condições muito mais difíceis, o europeu do Paleolítico Superior mostrou uma proporção duas vezes maior de adultos maduros e jovens que os homens modernos do Paleolítico Médio.

Momentos de maturidade
não sabemos exatamente o que esses europeus do Paleolítico Superior fizeram culturalmente que permitiu que tantos vivessem muito mais. Mas não há duvida de que esse aumento de sobrevivência de adultos em si exerceu efeitos de longo alcance. Como Kristen Hawkes, da University of Utah, Hillard Kaplan, da University of New Mexico, e outros mostraram em seus estudos sobre diversos grupos modernos de caçadores-coletores, os avos geralmente contribuem com recursos econômicos e sociais com os parentes, aumentando tanto o numero de descendentes que seus filhos podem ter quanto a sobrevivência de seus netos. Os avos também reforçam conexões sociais complexas – como a minha avo fez, ao contar historias dos antepassados que me ligaram a outros parentes da minha geração. Essas informações são o alicerce sobre o qual se constrói a organização social humana.
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Rachel Caspari Rachel Caspari é professora de antropologia da Central Michigan University. Sua pesquisa concentra-se nos neandertais, na origem dos homens modernos e na evolução da longevidade.
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