Reportagem
edição 112 - Setembro 2011
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A evolução dos avós
Idosos podem ter sido o segredo do sucesso da nossa espécie
por Rachel Caspari
Natural History Museum, Lodres
[continuação]

Os mais velhos também transmitem outros tipos de conhecimento cultural, desde o ambiental (por exemplo: que tipos de plantas são venenosas, ou onde encontrar água durante as secas), ao tecnológico (como tecer um cesto ou talvez fazer uma faca de pedra). Estudos liderados por Pontus Strimling, da Universidade de Estocolmo, mostraram que a repetição e um fator critico na transmissão de normas e tradições da cultura. As famílias com varias gerações tem mais membros para martelar essas lições relevantes. Assim, presume-se que a longevidade promoveu o acumulo e a transferência de informações entre as gerações que incentivaram a formação de sistemas de parentesco intrincados e outras redes sociais e que nos permitem ajudar e sermos ajudados quando as coisas se complicam.

O aumento na longevidade também se traduziu em aumento da população, adicionando um grupo de idade ausente no passado e que ainda era fértil. E as grandes populações são os principais engenhos de novos comportamentos. Em 2009, Adam Powell, da University College London, e seus colegas publicaram um artigo na Science mostrando que a densidade populacional e importante na manutenção da complexidade cultural. Eles e vários outros cientistas argumentam que as populações maiores promoveram o desenvolvimento de extensas redes de comercio, sistemas complexos de cooperação e expressões materiais de identidade individual e grupal (jóias, pintura corporal, etc.). Visto sob essa luz, as características marcantes do Paleolítico Superior: o aumento explosivo do uso de símbolos, por exemplo, ou a incorporação de materiais exóticos na fabricação de ferramentas – parecem muito bem ter resultado do tamanho crescente da população.

Essa dimensão populacional crescente também teria afetado nossos ancestrais de outra forma: acelerando o ritmo da evolução. Como John Hawks, da University of Wisconsin-Madison, enfatizou, mais pessoas significam mais mutações e oportunidades de mutações vantajosas se disseminarem pelas populações conforme os seus membros se reproduzem. Esta tendência pode ter tido um efeito ainda mais marcante em seres humanos mais recentes que os do Paleolítico Superior, compondo o crescimento enorme da população que acompanhou a domesticação de plantas ha 10 mil anos. No livro de 2009, The 10,000 year explosion, Gregory Cochran e Henry Harpending, ambos da University of Utah, descrevem variantes de gene múltiplo, desde os que influenciam a cor da pele aos que determinam a tolerância ao leite de vaca – que surgiram e se propagaram rapidamente nos últimos 10 mil anos, graças ao numero cada vez maior de criadores.

A relação entre a sobrevivência de adultos e o aparecimento de tradições culturais novas e sofisticadas, começando com as do Paleolítico Superior, era quase certamente um processo de feedback positivo. A longevidade, inicialmente um subproduto de algum tipo de mudança cultural, tornou-se um pré-requisito para comportamentos singulares e complexos que sinalizam a modernidade. Alem disso, essas inovações promoveram a importância e a sobrevivência de adultos mais velhos, levando as expansões populacionais que exerceram efeitos culturais e genéticos profundos sobre os nossos antecessores. Realmente, quanto mais velho, mais sábio.
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Rachel Caspari Rachel Caspari é professora de antropologia da Central Michigan University. Sua pesquisa concentra-se nos neandertais, na origem dos homens modernos e na evolução da longevidade.
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