Reportagem
edição 42 - Novembro 2005
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A exuberante fauna marinha brasileira
Projeto Revizee revela novas espécies e hábitos desconhecidos do fundo do mar e confirma baixos estoques em pesquisa que durou dez anos
por Eduardo Augusto Geraque
[continuação]

Os dados mostram que ações mais efetivas no controle do esforço pesqueiro são essenciais. Todos os trabalhos científicos e análises, reunidos em diversos relatórios - o sumário executivo ainda está sendo finalizado e deve ser publicado até março -, são categóricos: salvo poucas exceções, a pesca na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil, faixa de 350 km a partir da costa ,está sendo feita de forma insustentável. "O Revizee mostra com clareza a inexistência de estoques de pescado capazes de gerar ou sustentar um aumento significativo da produção. Os recursos tradicionais apresentam biomassas muito reduzidas", explica Carmen Lúcia.

A importância do estudo não se resume, entretanto, às advertências sobre a oferta e a sobrepesca no país. Pelo contrário, o programa como um todo está entrando para a história como o mais importante da oceanografia no Brasil. Trata-se da primeira vez que é realizado um levantamento amplo e de toda a costa, de norte a sul do país. O conhecimento da biodiversidade marinha, principalmente a existente em águas profundas, passou por uma grande ampliação, para não dizer revolução. Os pesquisadores não sabiam o que encontrariam em profundidades maiores do que 100 metros, pois não havia estudos suficientes sobre a região. A pesquisa sobre as populações que habitam a quebra da plataforma, onde a profundidade aumenta dos 100 ou 200 metros para mil ou mais, gerou informações absolutamente inéditas e muito interessantes do ponto de vista científico.

Além de ocorrências de peixes conhecidos em novos locais, os pesquisadores identificaram várias espécies até então desconhecidas. Só na região Sudeste-Sul foram 11. Entre elas estão a Hydrolagys matallanasi e a Eptatretus menezesi, ambas já descritas. Descobertas durante os vários cruzeiros oceanográficos dos quais participaram os cientistas ,a maioria das descobertas ainda carece de descrição completa e até de nomes populares.

Um dos achados relativos a hábitos diz respeito ao peixe-lanterna (Maurolicus stehmanni). Descobriu-se que essa espécie migra, a velocidade bastante rápida, das zonas mais profundas para as mais rasas, em busca de alimento. O deslocamento ao longo de um curto período tem implicação ecológica grande, pois trata-se de espécie forrageira, que serve de alimento para várias outras de maior porte, impactando, assim, o ecossistema de vários animais, segundo Roberto Ávila Bernardes, um dos pesquisadores do Revizee. O mesmo ocorre com o calamar argentino (Illex argentinus), já explorado no sul do país, no Uruguai e na Argentina, que pode ser considerado um recurso pesqueiro potencial propriamente dito. Essa espécie foi detectada na região oceânica localizada na quebra da plataforma.
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Eduardo Augusto Geraque É jornalista e biólogo. Mestre em oceanografia biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, faz, na mesma universidade, doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam/USP), com especialização em jornalismo ambiental.
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