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Reportagem |
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| edição 86 - Julho 2009 |
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| A longa e (incompleta) domesticação do gato |
| Descobertas genéticas e arqueológicas indicam que os gatos selvagens foram domesticados precocemente e em um local diferente do que se supunha |
| por Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien |
[continuação]
Os resultados revelaram cinco agrupamentos genéticos, ou linhagens, de gatos selvagens. Quatro dessas linhagens correspondiam exatamente a quatro das subespécies conhecidas de gato selvagem que habitam locais específicos: a F. s. silvestris na Europa, a F.s. bieti na China, a F. s. ornata na Ásia Central e a F.s. cafra no sul da África. No entanto, a quinta linhagem incluiu não apenas a quinta subespécie conhecida do gato selvagem – a F. s. lybica do Oriente Médio –, mas também as centenas de gatos domésticos da amostragem, incluindo os de raças puras e os felinos híbridos dos Estados Unidos, Reino Unido e Japão. Geneticamente, os gatos selvagens F. s. lybica coletados nos distantes desertos de Israel, nos Emirados Árabes ou na Arábia Saudita eram praticamente indistinguíveis dos gatos domésticos. O fato de eles se agruparem apenas com o F. s. lybica sugere que os gatos domésticos de todo o mundo surgiram de um único local, o Oriente Médio, e não de outras regiões, onde os gatos selvagens são comuns.
Assim que descobrimos o local de origem dos gatos domésticos, o próximo passo foi determinar quando foram domesticados. Com frequência, os geneticistas podem estimar quando um evento evolucionário particular ocorreu, estudando a quantidade de mutações genéticas randômicas que se acumulam a uma taxa constante ao longo fodo tempo. Mas esse “relógio molecular” anda devagar demais para datar precisamente eventos tão recentes quanto os últimos dez mil anos, o intervalo provável da domesticação do gato. Para se ter uma ideia de quanto se iniciou o amansamento do gato, nos voltamos ao registro arqueológico. Uma descoberta recente provou-se especialmente esclarecedora em relação a essa questão.
Em 2004, Jean-Denis Vigne, do Museu Nacional de História Natural de Paris, e seus colegas reportaram ter desenterrado as evidências mais antigas sugerindo que os homens mantinham os gatos como animais de estimação. A descoberta vem da ilha mediterrânea de Chipre, onde, há 9.500 anos, um adulto humano de sexo desconhecido foi deixado para o descanso fi nal em uma cova rasa. Objetos variados acompanhavam o corpo: ferramentas de pedra, um pedaço de óxido de ferro, um punhado de conchas e, em sua própria minúscula cova, a apenas 40 cm de distância, um gato de oito meses de idade, o corpo voltado na mesma direção oeste que o do humano.
Como os gatos não são nativos das ilhas mediterrâneas, sabemos que as pessoas os trouxeram de barco, provavelmente da costa oriental ao lado. Juntos – o transporte de gatos à ilha e o enterro do humano próximo ao gato – indicam que as pessoas do Oriente Médio já tinham uma relação especial, intencional, com os gatos há quase dez mil anos. Essa localização é consistente com a origem geográfica a que chegamos por meio das análises genéticas. Portanto, parece que os gatos foram sendo domesticados ao mesmo tempo que o homem se estabelecia nos primeiros povoados na parte do Oriente Médio conhecida como Crescente Fértil. |
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| Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien Carlos A. Driscoll faz parte da equipe da Unidade de Pesquisa sobre a Preservação de Animais Selvagens da University of Oxford e do Laboratório de Diversidade Genômica do National Cancer Institute (NCI). Em 2007, publicou a primeira árvore genealógica, com base no DNA, do Felis silvestris, a espécie à qual pertence o gato doméstico. Juliet Clutton-Brock, fundadora do International Council for Archaeozoology, é pioneira no estudo da domesticação e dos primórdios da agricultura. Andrew C. Kitchener é o curador principal de mamíferos e aves do National Museums of Scotland, onde estuda a variação geográfica e a hibridação dos mamíferos e aves. Stephen J. O’Brien é chefe do Laboratório de Diversidade Genômica do NCI. Estudou a genética de guepardos, leões, orangotangos, pandas, baleias jubartes e do HIV. Este é seu quinto artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN. |
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