Reportagem
  
edição 86 - Julho 2009
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A longa e (incompleta) domesticação do gato
Descobertas genéticas e arqueológicas indicam que os gatos selvagens foram domesticados precocemente e em um local diferente do que se supunha
por Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien
[continuação]

Com o tempo, os gatos selvagens mais tolerantes com a vida nos ambientes dominados pelos homens começaram a proliferar em vilarejos em todo o Crescente Fértil. A seleção nesse novo nicho teria sido principalmente pela mansidão, mas a competição entre os gatos também teria continuado a influenciar sua evolução e a limitar sua docilidade. Como, sem dúvida, esses protogatos domésticos foram deixados para se virar sozinhos, suas aptidões de caça e de remexer o lixo permaneceram agudas. Ainda hoje, a maioria dos gatos domesticados é independente e consegue sobreviver facilmente sem os humanos. Isso fica claro observando o enorme número de gatos soltos nas metrópoles, cidades e vilarejos de todo o mundo.

Considerando-se que os gatos pequenos obviamente não provocam muito dano, as pessoas provavelmente não se importaram com a companhia deles. Elas podem, até mesmo ter incentivado os gatos a ficar ao redor ao ver que afugentavam os camundongos e as cobras. Os gatos também podem ter tido outro atrativo. Alguns especialistas especulam que os gatos selvagens têm características que podem tê-los pré-adaptados a desenvolver uma relação com as pessoas. Em especial, esses gatos têm traços “graciosos”: olhos grandes, um rosto arrebitado e alongado, a testa alta e arredondada, dentre outros – conhecidos por evocar carinho e proteção dos humanos. A causa mais provável, porém, pode ter sido que algumas pessoas levaram os gatinhos para casa apenas porque os acharam adoráveis e os amansaram, propiciando-lhes o primeiro passo dentro do lar humano.

Por que a F. s. lybica, o gato selvagem africano, foi a única subespécie de gato selvagem a ser domesticada? As evidências dos relatos sugerem que algumas outras subespécies, como o gato selvagem europeu e o gato-da-areia da China são menos tolerantes com as pessoas. Se for assim, esse traço em si pode ter impedido a sua adoção em lares. Em contraposição, os gatos selvagens mais amistosos do sul da África e da Ásia Central podem muito bem ter sido domesticados sob condições favoráveis. Mas a F.s. lybica tinha a grande vantagem de estar perto dos primeiros povoamentos. Conforme a agricultura se espalhou, a partir do Crescente Fértil, houve o amansamento da F. s. lybica, preenchendo o mesmo nicho em cada região em que penetravam – e efetivamente fechando a porta para as populações nativas de gatos selvagens. Se os gatos domésticos do Oriente Médio nunca tivessem chegado à África ou à Ásia, talvez os gatos selvagens autóctones pudessem ter sido atraídos para os lares e vilarejos conforme as civilizações se desenvolviam.

Ascensão da Deusa
Não sabemos quanto tempo levou a transformação do gato selvagem africano para um companheiro doméstico carinhoso. Os animais podem ser domesticados bem rapidamente sob condições controladas. Em uma famosa experiência iniciada em 1959, cientistas russos, usando procedimentos altamente seletivos de raças, produziram raposas prateadas mais mansas a partir de espécimes selvagens em apenas 40 anos. Mas sem portas ou janelas, os agricultores neolíticos não teriam a possibilidade de forçar o controle da raça dos gatos mesmo se quisessem. Parece razoável sugerir que a falta da influência humana na apuração de raças e no provável cruzamento entre gatos domésticos e selvagens evitaram o amansamento rápido, atrasando a transformação, que só ocorreu em milhares de anos.
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Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien Carlos A. Driscoll faz parte da equipe da Unidade de Pesquisa sobre a Preservação de Animais Selvagens da University of Oxford e do Laboratório de Diversidade Genômica do National Cancer Institute (NCI). Em 2007, publicou a primeira árvore genealógica, com base no DNA, do Felis silvestris, a espécie à qual pertence o gato doméstico. Juliet Clutton-Brock, fundadora do International Council for Archaeozoology, é pioneira no estudo da domesticação e dos primórdios da agricultura. Andrew C. Kitchener é o curador principal de mamíferos e aves do National Museums of Scotland, onde estuda a variação geográfica e a hibridação dos mamíferos e aves. Stephen J. O’Brien é chefe do Laboratório de Diversidade Genômica do NCI. Estudou a genética de guepardos, leões, orangotangos, pandas, baleias jubartes e do HIV. Este é seu quinto artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN.
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