Reportagem
  
edição 86 - Julho 2009
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A longa e (incompleta) domesticação do gato
Descobertas genéticas e arqueológicas indicam que os gatos selvagens foram domesticados precocemente e em um local diferente do que se supunha
por Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien
[continuação]

Embora a linha de tempo exata da domesticação do gato permaneça nebulosa, evidências arqueológicas já conhecidas há muito tempo permitem alguma compreensão desse processo. Depois da descoberta cipriota, as próximas indicações mais antigas da associação entre homens e gatos são um dente molar de um felino de um depósito arqueológico em Israel, que data aproximadamente de nove mil anos, e outro dente no Paquistão, de cerca de quatro mil anos.

O testamento da domesticação completa vem de um período muito porterior. Uma estatueta, de Israel, de um gato em marfim, de quase 3.700 anos, indica que o animal era comumente visto perto de lares e vilarejos do Crescente Fértil antes de sua introdução no Egito. Esse cenário é lógico, já que todos os outros animais domésticos (exceto o asno) e as plantas foram introduzidos no vale do Nilo a partir do Crescente Fértil. Mas são as pinturas egípcias, do chamado período do Novo Império (a era de ouro do Egito iniciada há pouco mais de 3.500 anos), que propiciam as representações conhecidas mais antigas e definitivas da domesticação total. Essas pinturas mostram tipicamente os gatos sob as cadeiras, às vezes, com coleiras ou focinheiras e, com frequência, comendo das tigelas ou se alimentando de sobras. A abundância dessas ilustrações sinaliza que os gatos tinham se tornado membros comuns dos lares egípcios naquela época.

Em grande parte, é devido a essas imagens evocativas que os acadêmicos tradicionalmente percebem o Egito antigo como o local da domesticação dos gatos. Entretanto, mesmo as mais antigas representações egípcias de gatos selvagens são 5 mil ou 6 mil anos mais recentes que o enterro cipriota de 9.500 anos atrás. Embora a cultura egípcia antiga não possa reivindicar o início da domesticação do gato, entre suas várias conquistas, com certeza, ela teve um papel essencial na posterior formação da dinâmica da domesticação e da dispersão de gatos por todo o mundo. De fato, os egípcios levaram o amor aos gatos a outro nível. Há 2.900 anos, o gato doméstico se tornou a divindade oficial do Egito, na forma da deusa Bastet, e os gatos domésticos eram sacrificados, mumificados e enterrados, em grande número, em Bubastis, cidade sagrada de Bastet. Avaliado em toneladas, o incrível número de gatos mumificados, lá encontrados, indica que os egípcios não apenas recolhiam populações ferais ou selvagens, mas pela primeira vez na história, criavam ativamente os gatos domésticos.

Durante séculos, o Egito proibiu oficialmente a exportação de seus venerados gatos. Entretanto, há cerca de 2.500 anos, os animais conseguiram chegar à Grécia, o que prova a ineficiência da proibição de exportação. Mais tarde, navios carregados de grãos zarparam diretamente de Alexandria para vários destinos do Império Romano e, com certeza, havia gatos a bordo para dar conta dos ratos. Dessa forma, os gatos devem ter estabelecido colônias em cidades portuárias, e a partir daí se espalharam. Há aproximadamente 2.500 anos, enquanto os romanos expandiam seu império, os gatos domésticos viajaram com eles, acabando por se tornar comuns em toda a Europa.
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Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien Carlos A. Driscoll faz parte da equipe da Unidade de Pesquisa sobre a Preservação de Animais Selvagens da University of Oxford e do Laboratório de Diversidade Genômica do National Cancer Institute (NCI). Em 2007, publicou a primeira árvore genealógica, com base no DNA, do Felis silvestris, a espécie à qual pertence o gato doméstico. Juliet Clutton-Brock, fundadora do International Council for Archaeozoology, é pioneira no estudo da domesticação e dos primórdios da agricultura. Andrew C. Kitchener é o curador principal de mamíferos e aves do National Museums of Scotland, onde estuda a variação geográfica e a hibridação dos mamíferos e aves. Stephen J. O’Brien é chefe do Laboratório de Diversidade Genômica do NCI. Estudou a genética de guepardos, leões, orangotangos, pandas, baleias jubartes e do HIV. Este é seu quinto artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN.
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