Reportagem
  
edição 86 - Julho 2009
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A longa e (incompleta) domesticação do gato
Descobertas genéticas e arqueológicas indicam que os gatos selvagens foram domesticados precocemente e em um local diferente do que se supunha
por Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien
[continuação]

Uma evidência dessa disseminação dos gatos pode ser encontrada na localidade alemã de Tofting, em Schleswig, no período entre os séculos 4 e 10, além das crescentes referências a gatos na arte e literatura daquele período. (Por estranho que pareça, os gatos domésticos devem ter chegado às Ilhas Britânicas antes de serem levados pelos romanos, numa dispersão que os pesquisadores ainda não conseguiram explicar.)

Enquanto isso, acredita-se que, no outro lado do planeta, os gatos domésticos tenham chegado ao Oriente há quase 2.500 anos, seguindo as rotas comerciais bem estabelecidas entre Grécia e Roma e o Extremo Oriente, atingindo a China, passando pela Mesopotâmia e alcançando a Índia tanto por terra quanto por mar. Então, algo interessante aconteceu: pelo fato de não existir por lá qualquer gato selvagem nativo, com os quais os recém-chegados pudessem cruzar, os gatos orientais logo passaram a seguir uma trajetória própria. Pequenos grupos isolados de gatos domésticos orientais gradualmente adquiriram cores características de pelagem, além de outras mutações, por meio de um processo conhecido como oscilação genética, na qual traços que não são benéficos, tampouco negativos, acabam se fixando em certa população.

Essa oscilação levou ao aparecimento dos gatos korat, siamês, birmanês e de outras “raças naturais”, descritas pelos monges budistas tailandeses em um livro denominado Tamara Maew (poemas do livro-gato), com data provável de 1350. A suposta antiguidade dessas raças foi comprovada pelos resultados de estudos genéticos anunciados no ano passado, nos quais Marilyn Menotti-Raymond, do National Cancer Institute e Leslie Lyons, da Davis, University of California, encontraram diferenças de DNA entre as raças de gatos domésticos contemporâneos europeus e orientais, indicativas dos mais de 700 anos de procriação independente na Ásia e Europa.

Em oposição, pouco se sabe de como os gatos chegaram à América. Está devidamente documentado que Cristóvão Colombo e os outros navegantes da época levavam gatos a bordo durante viagens transatlânticas. Diz-se também que os viajantes a bordo do Mayflower e os residentes de Jamestown, nos Estados Unidos, trouxeram gatos consigo, para controlar os insetos e trazer boa sorte. Menos ainda se sabe da chegada dos gatos à Austrália, embora os pesquisadores presumam que tenham viajado com colonizadores europeus no século 17. Nosso grupo do U.S. National Institutes of Health vem estudando essa questão, usando o DNA.
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Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien Carlos A. Driscoll faz parte da equipe da Unidade de Pesquisa sobre a Preservação de Animais Selvagens da University of Oxford e do Laboratório de Diversidade Genômica do National Cancer Institute (NCI). Em 2007, publicou a primeira árvore genealógica, com base no DNA, do Felis silvestris, a espécie à qual pertence o gato doméstico. Juliet Clutton-Brock, fundadora do International Council for Archaeozoology, é pioneira no estudo da domesticação e dos primórdios da agricultura. Andrew C. Kitchener é o curador principal de mamíferos e aves do National Museums of Scotland, onde estuda a variação geográfica e a hibridação dos mamíferos e aves. Stephen J. O’Brien é chefe do Laboratório de Diversidade Genômica do NCI. Estudou a genética de guepardos, leões, orangotangos, pandas, baleias jubartes e do HIV. Este é seu quinto artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN.
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