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Reportagem |
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| edição 86 - Julho 2009 |
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| A longa e (incompleta) domesticação do gato |
| Descobertas genéticas e arqueológicas indicam que os gatos selvagens foram domesticados precocemente e em um local diferente do que se supunha |
| por Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien |
[continuação]
Aperfeiçoamento em Busca da Beleza Embora os seres humanos possam ter desempenhado um papel de menor importância no desenvolvimento das raças naturais do Oriente, o esforço para produzir novas raças teve início há relativamente pouco tempo. Mesmo os egípcios, que sabidamente criavam gatos extensivamente, não pareciam buscar traços característicos, provavelmente pelo fato de não terem surgido na época variações distintas: em suas pinturas, tanto os gatos selvagens quanto os domésticos foram retratados com o mesmo tipo de pelo tigrado. Com base nos escritos de história natural do artista Harrison Weir, especialistas acreditam que a maioria das espécies contemporâneas foi criada nas Ilhas Britânicas, no século 19. Em 1871 ocorreu a primeira exposição de gatos, com raças criadas para o fim específico de chegar a determinada aparência. Os animais foram exibidos no Crystal Palace, em Londres (a vitória coube a um persa, embora os siameses tenham provocado alvoroço).
Hoje, a Cat Fancier’s Association e a International Cat Association reconhecem quase 60 raças de gatos domésticos. Apenas cerca de uma dúzia de genes é responsável pelas diferenças na cor, comprimento e textura dos pelos, assim como por outras características mais sutis, como a tonalidade e o brilho da pelagem das raças.
Graças ao sequenciamento do genoma completo de um gato abissínio, chamado Cinnamon, em 2007, os geneticistas vêm identificando rapidamente as mutações que produzem esses traços, como as cores malhada, o preto, o branco e o laranja, o pelo longo e muitos outros. Entretanto, além das diferenças nos genes relativos à pelagem, a variação genética entre as espécies de felinos domésticos é muito sutil, comparável à diferença entre as populações humanas próximas, como franceses e italianos.
A ampla gama de tamanhos, formas e temperamentos, encontrada em cães (comparem um chihuahua com o enorme dinamarquês), é inexistente entre os gatos. Os felinos mostram muito menos variedade, pois, diferentemente dos cães que, desde os tempos pré-históricos, eram criados visando certas tarefas, como a guarda, a caça e o pastoreio, os gatos selvagens não foram submetidos a essas pressões de criação seletiva. Para entrar em nossos lares, tiveram apenas de desenvolver certa disposição amigável em relação aos homens.
E será que os gatos atuais estão realmente domesticados? Bem, sim, mas apenas o suficiente, pois embora satisfaçam o critério de tolerar os seres humanos, a maioria dos gatos domésticos ainda é livre e não conta com os homens para alimentá-lo ou para se acasalar. E, se por um lado, outros animais domesticados, como os cães, pareçam bastante diferentes dos seus ancestrais, o gato comum doméstico mantém muito da sua aparência original. Existem algumas diferenças morfológicas: as pernas mais curtas, um cérebro menor e, como bem notou Charles Darwin, um intestino mais comprido, que pode ser uma adaptação advinda do ato de remexer sobras de cozinha.
Mesmo assim, o gato doméstico está longe de parar de evoluir. De posse da tecnologia de inseminação artificial e da inseminação in vitro, hoje os criadores de gatos impulsionam a genética dos felinos domésticos em direção a um terreno inexplorado: estão criando gatos domésticos híbridos com outras espécies de felinos, produzindo novas espécies exóticas. O gato bengal e o caracata, por exemplo, resultaram do cruzamento do leopardo asiático com o caracal, respectivamente. O gato doméstico pode, por isso mesmo, estar às portas de uma evolução radical e sem precedentes, em um animal composto de multiespécies, cujo futuro só pode ser imaginado. |
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| Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien Carlos A. Driscoll faz parte da equipe da Unidade de Pesquisa sobre a Preservação de Animais Selvagens da University of Oxford e do Laboratório de Diversidade Genômica do National Cancer Institute (NCI). Em 2007, publicou a primeira árvore genealógica, com base no DNA, do Felis silvestris, a espécie à qual pertence o gato doméstico. Juliet Clutton-Brock, fundadora do International Council for Archaeozoology, é pioneira no estudo da domesticação e dos primórdios da agricultura. Andrew C. Kitchener é o curador principal de mamíferos e aves do National Museums of Scotland, onde estuda a variação geográfica e a hibridação dos mamíferos e aves. Stephen J. O’Brien é chefe do Laboratório de Diversidade Genômica do NCI. Estudou a genética de guepardos, leões, orangotangos, pandas, baleias jubartes e do HIV. Este é seu quinto artigo para a SCIENTIFIC AMERICAN. |
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