Reportagem
edição 74 - Julho 2008
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A neurobiologia da confiança
Nossa propensão a acreditar em estranhos tem relação direta com a presença de uma pequena molécula no cérebro, a oxitocina. Levantamento internacional revela que os brasileiros são os que confiam menos
por Paul J. Zak
[continuação]

Considerações Futuras
Atualmente, meu laboratório está concentrado em examinar se os déficits na atividade de oxitocina no cérebro contribuem para disfunções caracterizadas por dificuldades nas interações sociais. Portadores de autismo, por exemplo, apresentam níveis baixos de oxitocina.

Segundo pesquisas, a reposição de peptídeo nesses indivíduos não produziu nenhum aumento no seu enlace social. Como era de esperar dos sujeitos indignos de confiança no jogo de confiança, esse resultado sugere a possibilidade de uma disfunção dos receptores de oxitocina dos portadores de autismo.

Da mesma forma, vítimas de lesão cerebral em regiões normalmente abundantes em receptores de oxitocina têm dificuldade para discriminar pessoas confiáveis e não confiáveis. Muitos distúrbios neurológicos e psiquiátricos comprometem a interação social, entre eles, esquizofrenia, depressão, mal de Alzheimer, fobia social e mal de Huntington. É possível que o comprometimento do sistema de oxitocina, como verificado naqueles indignos de confiança, interfira nessas doenças.

Uma maior compreensão desses estudos pode levar a novos métodos de tratamento. As operações com oxitocina no organismo parecem ser bastante dinâmicas; o peptídeo interage com outros hormônios e neurotransmissores cujos níveis variam de minuto a minuto e durante todo o ciclo de vida. O estrogênio, por exemplo, aumenta a captação de oxitocina pelos tecidos do corpo, enquanto a progesterona faz o contrário. Esses efeitos indicam que tanto as indicações psicológicas como as ambientais instigam nosso desejo de interagir socialmente.

Eles também sugerem que nossas experiências de vida podem “reajustar” o mecanismo de oxitocina em um “ponto ajustado” diferente e, portanto, em diferentes níveis de confiança ao longo da vida. Viver num ambiente seguro e acolhedor pode estimular a liberação de mais oxitocina, quando alguém confia em nós – e a reciprocidade dessa confiança. Estresse, incerteza e isolamento trabalham contra o desenvolvimento da disposição de confiar.
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Paul J. Zak é diretor-fundador e professor de economia do Centro de Estudos em Neuroeconomia da Claremont Graduate University. Zak também leciona neurologia clínica no Centro Médico da Loma Linda University. Ele é Ph.D. em economia pela University of Pennsylvania e pós-doutorando em neuroimagem pela Harvard University. Seu livro recente, Moral markets: the critical role of values in the economy, foi publicado pela Princeton University Press, este ano.
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