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Reportagem |
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| edição 74 - Julho 2008 |
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| A neurobiologia da confiança |
| Nossa propensão a acreditar em estranhos tem relação direta com a presença de uma pequena molécula no cérebro, a oxitocina. Levantamento internacional revela que os brasileiros são os que confiam menos |
| por Paul J. Zak |
[continuação]
Ao ponderar sobre a importância da confiança no combate à pobreza, comecei a questionar como duas pessoas passam a confiar uma na outra. Essa informação poderia ajudar os legisladores a criar sistemas econômicos que facilitassem esse processo. Estudos de laboratório demonstraram que pessoas numa mesma situação podem variar grandemente quanto à propensão a confiar em outros indivíduos, mas nenhum descreveu um mecanismo coerente sobre o que se passa no cérebro humano para provocar a confiança. A partir daí, passei a investigar as bases neurais desses sentimentos.
Um grande número de pesquisas com animais apontou para a oxitocina como possível fator contribuinte. Essa pequena proteína, ou peptídeo, composta de apenas nove aminoácidos é produzida no cérebro, onde tem a função de molécula sinalizadora – um neurotransmissor. Ela também funciona como hormônio, percorrendo a corrente sangüínea e influenciando tecidos distantes. Até então, esse peptídeo era mais conhecido nos humanos por seu papel em estimular o fluxo de leite em lactentes e em induzir o parto; ainda hoje, metade das mulheres que dá à luz nos Estados Unidos, por exemplo, recebe oxitocina sintética – chamada pitocina –para apressar as contrações uterinas. E não foi fácil documentar os efeitos mais sutis do peptídeo, pois suas concentrações no sangue são extremamente baixas e se degradam rapidamente. A pesquisa com animais, no entanto, indica que a oxitocina de alguma forma facilita a cooperação – que requer a confiança – em certos mamíferos, e que um parente próximo, a vasotocina, aparentemente promove interações amigáveis em outras criaturas também.
De acordo com biólogos evolucionários a vasotocina apareceu primeiramente em peixes, cerca de 100 milhões de anos atrás. Nesses animais ela facilita a reprodução sexual reduzindo o medo natural da fêmea de se aproximar de um macho, ao ovular. Os biólogos pressupõem que um mecanismo para reduzir o medo durante a ovulação evoluiu devido aos benefícios do sexo – os descendentes e a maior diversidade genética – em contrapartida ao risco de se tornar o almoço de outro peixe. |
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 | Paul J. Zak é diretor-fundador e professor de economia do Centro de Estudos em Neuroeconomia da Claremont Graduate University. Zak também leciona neurologia clínica no Centro Médico da Loma Linda University. Ele é Ph.D. em economia pela University of Pennsylvania e pós-doutorando em neuroimagem pela Harvard University. Seu livro recente, Moral markets: the critical role of values in the economy, foi publicado pela Princeton University Press, este ano. |
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