Reportagem
edição 74 - Julho 2008
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 »
A neurobiologia da confiança
Nossa propensão a acreditar em estranhos tem relação direta com a presença de uma pequena molécula no cérebro, a oxitocina. Levantamento internacional revela que os brasileiros são os que confiam menos
por Paul J. Zak
[continuação]

Nos mamíferos, a vasotocina evoluiu para dois peptídeos intimamente ligados, a oxitocina e a arginina vasopressina. Pesquisas com roedores, iniciadas no final da década de 70, mostraram que essas moléculas também promoveram a afiliação com semelhantes. Cort A. Pedersen e colegas da University of North Carolina, em Chapel Hill, por exemplo, demonstraram que a oxitocina estimulou o comportamento maternal em progenitoras de roedores.

Pouco tempo depois, os zoólogos C. Sue Carter e Lowell L. Getz, ambos da University of Illinois, em Urbana-Champaign, examinaram a oxitocina em duas espécies de pequenos roedores, genética e geograficamente relacionadas: camundongos de planície e camundongos de montanha. Camundongos machos de planície são “cidadãos” íntegros: tipicamente coabitam com a parceira por toda a vida, vivem em grupos sociais e são pais zelosos. Os machos montanheses, em contraste, são “cafajestes” egocêntricos: promíscuos e solitários, tratam os filhos com indiferença. Carter e Getz, assim como diversos pesquisadores que se seguiram, mostraram que a diferença entre o comportamento social nessas espécies de camundongo podia ser atribuída à localização dos receptores de oxitocina e arginina vasopressina no cérebro deles. Para ter um efeito sobre as células cerebrais, as moléculas primeiramente devem ligar-se a determinados receptores na superfície dos neurônios. Nos camundongos de planície esses receptores se concentram nas regiões do cérebro que tornam a monogamia recompensadora – nas áreas do mesencéfalo que modulam a liberação dos neurotransmissores de dopamina e reforçam para o macho o valor da coabitação e do cuidado com os filhos.

O Jogo da Confiança
Embora a pesquisa feita com animais não investigue diretamente a questão da construção da confiança, a importância da oxitocina em unir os animais, a meu ver, implica que ela também pode servir de base para a confiabilidade, condição presumidamente necessária para a aproximação. Na mesma época, cientistas descobriram modos para medir, rápida e seguramente, pequenas alterações nos níveis de oxitocina em amostras de sangue.
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 »
Paul J. Zak é diretor-fundador e professor de economia do Centro de Estudos em Neuroeconomia da Claremont Graduate University. Zak também leciona neurologia clínica no Centro Médico da Loma Linda University. Ele é Ph.D. em economia pela University of Pennsylvania e pós-doutorando em neuroimagem pela Harvard University. Seu livro recente, Moral markets: the critical role of values in the economy, foi publicado pela Princeton University Press, este ano.
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!