Reportagem
edição 74 - Julho 2008
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A neurobiologia da confiança
Nossa propensão a acreditar em estranhos tem relação direta com a presença de uma pequena molécula no cérebro, a oxitocina. Levantamento internacional revela que os brasileiros são os que confiam menos
por Paul J. Zak
[continuação]

O que li sobre roedores sugere que sinais sociais não-ameaçadores induzem a produção de oxitocina no cérebro de recipientes de sinais, e me pergunto se, nos humanos, a abordagem de estranhos que oferecem sinais positivos pode estimular a liberação de peptídeos nos outros. Meus colegas – Robert Kurzban, psicólogo atualmente da University of Pennsylvania, e William Matzner, aluno meu da Claremont Graduate University, à época – e eu mesmo passamos a testar esse conceito para ver se a produção de oxitocina seria afetada por isso e se afetaria o comportamento social em humanos.

Assim, tivemos de descobrir uma maneira para medir o grau de confiança entre estranhos. Numa pesquisa com roedores, um estranho seria simplesmente introduzido na gaiola de outro animal para verificar se o comportamento não-ameaçador pode estimular a liberação de oxitocina; mas a capacidade humana para avaliar situações sociais em potencial é sofisticada demais para uma experimentação simples como essa. A reação das pessoas pode ser influenciada por diversos outros fatores, incluindo aparência física, vestimenta, e assim por diante. Felizmente, os economistas experimentais Joyce Berg, da University of Iowa, e John Dickhaut e Kevin McCabe, ambos da University of Minnesota, à época, já haviam desenvolvido um experimento em meados da década de 90, capaz de medir isso. Nessa tarefa os sujeitos do teste podem sinalizar que confiam em um estranho, sacrificando seu próprio dinheiro numa transferência para um estranho. Eles mandam dinheiro para um estranho por acreditar que essa pessoa, em retorno, irá lhes devolver ainda mais. Os pesquisadores deram a isso o nome de “jogo da confiança”.

Em meu laboratório, o jogo da confiança se dá do seguinte modo: minha equipe recruta pessoas que ganham US$ 10 se concordarem em passar uma hora e meia conosco. Organizamos os participantes em pares aleatórios sem que os dois possam se ver nem se comunicar diretamente. Então, pedimos a ambos que decidam sobre dividir seu dinheiro com o parceiro. Em cada par, uma pessoa é designada sujeito 1 e sujeito 2. Começamos explicando a ambos o funcionamento do jogo. Primeiro o sujeito 1 é convocado, via computador, a decidir se enviará parte dos US$ 10 que recebeu por sua participação com a outra pessoa. A quantia dada é triplicada numa conta para o sujeito 2. Digamos que o sujeito 1 decida iniciar com US$ 6, então, o sujeito 2 terminaria com US$ 28 (três vezes US$ 6 mais US$ 10), e o sujeito 1 ficaria com US$ 4.
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Paul J. Zak é diretor-fundador e professor de economia do Centro de Estudos em Neuroeconomia da Claremont Graduate University. Zak também leciona neurologia clínica no Centro Médico da Loma Linda University. Ele é Ph.D. em economia pela University of Pennsylvania e pós-doutorando em neuroimagem pela Harvard University. Seu livro recente, Moral markets: the critical role of values in the economy, foi publicado pela Princeton University Press, este ano.
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