Reportagem
  
edição 74 - Julho 2008
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A neurobiologia da confiança
Nossa propensão a acreditar em estranhos tem relação direta com a presença de uma pequena molécula no cérebro, a oxitocina. Levantamento internacional revela que os brasileiros são os que confiam menos
por Paul J. Zak
[continuação]

Na etapa seguinte, o computador informaria o sujeito 2 sobre a transferência de dinheiro e permitiria a essa pessoa devolver parte da quantia ao sujeito 1, deixando claro que não haveria necessidade de mandar o dinheiro de volta, e assegurando que a identidade e as decisões dos participantes permaneceriam confidenciais. Todo e qualquer dinheiro devolvido pelo sujeito 2 é debitado de sua própria conta na proporção de um-por-um – isto é, a quantia não seria triplicada. Nenhuma decepção seria permitida – os pagamentos são feitos, na verdade, com base nessas escolhas. Imediatamente depois de os participantes tomarem sua decisão, pedimos a eles que fornecessem amostras de sangue para que determinássemos seus níveis de oxitocina.

Interpretando o Jogo
O consenso entre os economistas experimentais é que a transferência inicial mede a confiança, enquanto a transferência retornada molda o valor da confiança. Pesquisadores fizeram e refizeram esse jogo da confiança inúmeras vezes, em diversos países e com apostas maiores.

Nos nossos experimentos, cerca de 85% dos indivíduos que eram sujeito 1 mandaram um pouco de dinheiro de volta para seus parceiros. Dos parceiros que receberam dinheiro, 98% então devolveram algum dinheiro ao sujeito 1. Interessante é que as pessoas, em geral, não conseguem articular nem por que confiam nem por que são confiáveis. Mas, com base nos trabalhos sobre roedores, suspeito que receber a confiança do sujeito 1 induz um aumento da oxitocina e que aqueles que receberam somas maiores do sujeito 1 teriam os maiores aumentos.

De fato, apuramos que o cérebro dos sujeitos 2 produziu o peptídeo ao receber dinheiro do parceiro, logo, sentiram a confiança depositada por um estranho. Além disso, quando os indivíduos sentiram maior confiança sob a forma de mais dinheiro, o cérebro deles liberou mais oxitocina. Para constatarmos se de fato o aumento de oxitocina era conseqüên-cia da confiança depositada, observamos os participantes do grupo de controle que haviam recebido transferências monetárias claramente aleatórias, e não porque alguém confiava na reciprocidade deles.

Esse controle foi importante para garantir que a liberação de oxitocina não estava relacionada apenas ao dinheiro. Descobrimos também que os sujeitos 2 com nível alto de oxitocina confiavam mais – ou seja, eles devolveram mais dinheiro ao sujeito 1, que havia confiado neles.
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MULTIMÍDIA:Veja animação complementar à matéria com os seguintes tópicos: Experimentos com Oxitocina, Neurobiologia básica e Pesquisa internacional.
Paul J. Zak é diretor-fundador e professor de economia do Centro de Estudos em Neuroeconomia da Claremont Graduate University. Zak também leciona neurologia clínica no Centro Médico da Loma Linda University. Ele é Ph.D. em economia pela University of Pennsylvania e pós-doutorando em neuroimagem pela Harvard University. Seu livro recente, Moral markets: the critical role of values in the economy, foi publicado pela Princeton University Press, este ano.
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