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Reportagem |
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| edição 74 - Julho 2008 |
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| A neurobiologia da confiança |
| Nossa propensão a acreditar em estranhos tem relação direta com a presença de uma pequena molécula no cérebro, a oxitocina. Levantamento internacional revela que os brasileiros são os que confiam menos |
| por Paul J. Zak |
[continuação]
Nossas descobertas indicam que os homens apresentam uma resposta agressiva quando outras não confiam neles. Mulheres e homens relataram igual desgosto por não receber um voto de confiança, mas as mulheres não apresentaram a mesma resposta psicológica exaltada dos homens. A maioria dos sujeitos 2 do sexo masculino tratada com desconfiança não devolveu nada a seus parceiros, enquanto a maioria das mulheres demonstrou reciprocidade proporcional uniformemente entre o grupo; elas tenderam a devolver cerca de uma fração igual à que haviam recebido, sem importar a quantia de dinheiro em questão.
Consideramos as respostas femininas mais “descoladas”, embora não tenhamos ainda estabelecido completamente as bases psicológicas dessa diferença. A possibilidade de uma resposta agressiva a um voto de desconfiança pode nos levar a confiar mais nos outros. A noção de que uma demonstração de desconfiança leva à agressão pode gerar uma demonstração mais confiante que em outras condições, só para evitar a ameaça.
A medição da atividade cerebral durante o jogo de confiança através de ressonância magnética funcional mostrou que confiar em estranhos gera atividade intensa nas regiões do diencéfalo, nas quais a dopamina se fixa e alimenta nosso instinto recompensador.
Esse resultado ajuda a explicar por que os sujeitos 2 que receberam dinheiro, em geral, sentem-se inclinados a devolver parte dele aos sujeitos 1, mesmo que isso represente prejuízo financeiro. A sensação positiva que os sujeitos 2 experimentaram ao corresponder à confiança, aparentemente, rendeu-lhes recompensa física, reforçando o desejo futuro de ser confiável.
Ainda que a maioria das pessoas pudesse ser considerada digna de confiança, 2% dos sujeitos 2, em nossas pesquisas, mostraram-se especialmente indignos de confiança – eles mantiveram todo, ou quase todo, dinheiro que haviam recebido – e, principalmente, exibiram níveis elevados incomuns de oxitocina. Esse resultado sugere que esses indivíduos têm receptores de oxitocina em regiões cerebrais erradas – por exemplo, as que não modulam a liberação de dopamina – ou apresentam receptores desregulados. No último caso, os neurônios ficariam praticamente alheios à liberação de oxitocina, independentemente do quanto fosse feito. Efetivamente, os mais desconfiáveis possuem traços de personalidade que lembram os de um sociopata, indiferente ao sofrimento alheio, ou mesmo estimulado por ele. |
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 | Paul J. Zak é diretor-fundador e professor de economia do Centro de Estudos em Neuroeconomia da Claremont Graduate University. Zak também leciona neurologia clínica no Centro Médico da Loma Linda University. Ele é Ph.D. em economia pela University of Pennsylvania e pós-doutorando em neuroimagem pela Harvard University. Seu livro recente, Moral markets: the critical role of values in the economy, foi publicado pela Princeton University Press, este ano. |
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