Reportagem
  
edição 22 - Março 2004
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A pesquisa que revolucionou a agricultura
Ao insistir na fixação de nitrogênio por bactérias, Johanna Döbereiner abriu os campos para a produção de soja, a grande estrela do agronegócio brasileiro
por Johanna Döbereiner
[continuação]

Orgulho de ter ampliado, ao lado de colaboradores, um campo de pesquisa fundamental para colocar a agricultura na harmonia possível com a natureza

O casal Döbereiner, que alugara moradia no bairro carioca de Campo Grande, viajava de ônibus diariamente até o Centro Nacional de Ensino e Pesquisas Agronômicas (CNEPA), no km 47 da antiga Rio-São Paulo. Jürgen havia sido contratado para trabalhar na cadeira de anatomia patológica, da Escola Nacional de Veterinária, que também funcionava ali. Em março de 1952, Álvaro Fagundes saiu da diretoria do SNPA, mas ainda prestou um grande favor a Johanna: deixou ordem para que lhe entregassem a casa no 19, recém-construída na rua Colina, no bairro residencial do CNEPA, que seria seu endereço definitivo. De lá, apenas dez minutos de caminhada a separavam do laboratório. A proximidade do local de trabalho contribuiu para o desenvolvimento das pesquisas feitas pelo casal. Em 1961, Jürgen recebeu uma bolsa da Fundação Rockefeller para fazer mestrado na Universidade de Wisconsin, em Madison, onde escreveu tese sobre a ação de plantas tóxicas em bovinos - sua especialidade.

Ao mesmo tempo, entre junho de 61 e janeiro de 63, Johanna desenvolveu um estudo sobre a fixação do nitrogênio em leguminosas, também em nível de mestrado. Sobre essa etapa ela diria: "Não foi possível continuar o trabalho com gramíneas nos Estados Unidos. Meu orientador (O. N. Allen) não queria saber de nada disso. Apesar de ter grande renome, ele não me ensinou muita coisa. Sempre digo que com ele só aprendi a fazer rolhas de algodão, muito usadas no laboratório. Eu tinha, naquela época, uma mentalidade bastante forte, e fui realizando o trabalho apesar de tudo. Meu orientador viajava muito. Um dia, após uma ausência de quatro meses, ele voltou e a tese estava pronta. Ele ficou possesso, mas se fechou em seu escritório durante dois dias para lê-la. A tese já estava inclusive datilografada... Vi-o na defesa da tese, onde apenas corrigiu três vírgulas, e mais nada".

Na verdade, Johanna foi apoiada pelo co-orientador. Mas isso não diminui o valor de seu esforço: houve comentários na época de que o trabalho que apresentou valeria por uma tese de doutorado. Ao retornar ao Brasil, Johanna estava mais que preparada para enfrentar o debate sobre os caminhos da soja no país. Desde então seu prestígio só cresceu, atraindo grande número de estudantes para o laboratório, que, em 1992, seria transformado numa unidade independente da Embrapa: o Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia. Por meio dos orientandos, estudantes de pós-graduação, a produção científica de Johanna se multiplicou. Ela fazia questão de dizer: "Não faço nada sozinha - tudo é fruto de muita troca entre nossa equipe".

De fato, sua assinatura aparece em mais de 500 trabalhos científicos. É digna de nota a maneira como se relacionava com os estudantes, que oscilava entre extremos de severidade e atitudes maternais. Preconceitos, nunca. Caso contrário, uma quase-menina, vestida à moda hippie, não teria sido admitida em seu laboratório, nos anos 1970.

Hoje, Fátima Moreira, professora de microbiologia e bioquímica do solo na Universidade Federal de Lavras, MG, conta que Johanna "não era um exemplo de gentileza". Mesmo assim, Fátima aprendeu a gostar daquela mulher enérgica, dedicada a múltiplos afazeres, capaz de assistir novelas de televisão enquanto escrevia ou lia trabalhos científicos. Fátima, como centenas de outros estudantes que passaram pelo laboratório, tinha por Johanna grande respeito e admiração. Sobretudo lealdade: quando estagiava no Senegal, na década de 80, reagiu com indignação às críticas endereçadas a Johanna por um pesquisador francês. Fátima lembra que o francês - uma autoridade na época, e hoje esquecido -, tempos depois, compareceria a uma homenagem feita à doutora Döbereiner...

O estudante Avílio Franco procurou Johanna em 65. Queria trabalhar com feijão - uma cultura importante para o povo brasileiro. Foi recebido com a severidade habitual que a pesquisadora reservava aos iniciantes. Levou para casa cinco trabalhos em inglês, que mal conhecia, e a incumbência de apresentar um plano de pesquisa a partir daqueles textos. Inúmeras consultas a dicionários e várias noites maldormidas depois, ele entregou a encomenda e foi aprovado. Começava ali um relacionamento muito produtivo em termos de trabalho, e uma longa amizade de 35 anos. Avílio conta que Johanna foi sua segunda mãe: "Ela também me considerava como filho e esteve presente em todos os passos de minha carreira. Inclusive me persuadiu a não trocar a pesquisa pela extensão rural, que na época garantia bom salário e estabilidade no emprego. Entre 68 e 71 fiquei no laboratório em caráter mais ou menos precário, dependendo de verbas que poderiam ou não sair, até ser contratado pelo Ministério da Agricultura".

E foi a dedicação e o carinho dos colaboradores mais próximos que permitiram a Johanna freqüentar o laboratório até quase seu último dia de vida. Ao falecer, em 5 de outubro de 2000, vítima de enfermidade neurológica, Johanna acumulava grande número de distinções, prêmios e homenagens. Uma delas, informal, foi prestada por Norman Borlaug, prêmio Nobel da Paz, chamado de "pai da \\'revolução verde\\'", que, em visita a Johanna, lhe disse: "O que você faz aqui é muito melhor que aquilo que fiz".

Johanna recebeu, ainda, o título de doutora Honoris Causa concedido pela Universidade da Flórida (1975) e pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982); em 1978 tornou-se membro da Academia de Ciências do Vaticano, nomeada pelo Papa Paulo VI, e foi condecorada várias vezes pelo governo brasileiro. Em 2001, cientistas mexicanos e alemães deram seu nome a duas novas espécies de bactérias fixadoras de nitrogênio, a Cluconacetobacter johannae sp. e Azospirillum doebereinerae sp. Finalmente, para preservar-lhe a memória e também dar apoio à continuidade de seu trabalho, Jürgen Döbereiner e um grupo de pesquisadores fundaram a Sociedade de Pesquisa Johanna Döbereiner, em 2002.
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Johanna Döbereiner Nascida na antiga Tchecoslováquia, Johanna Döbereiner é a cientista brasileira de maior projeção internacional até hoje.

Naturalizada em 1956, tornou-se mundialmente conhecida por sua pesquisa sobre fixação biológica de nitrogênio, o que lhe valeu indicações para o Nobel de Química. Sobre o prêmio, disse: "Há muita política nisso e nem é minha ambição".

Como resultado de sua atuação, o Brasil economiza bilhões de dólares ao deixar de consumir milhões de toneladas de adubos nitrogenados, principalmente no cultivo da soja
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