|
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Reportagem |
|
|
| edição 47 - Abril 2006 |
 |
|
| A redescoberta do Aqüífero Guarani |
| O megarreservatório hídrico subterrâneo da América do Sul não é o "mar de água doce" que se pensava existir. Novos estudos sobre sua diversidade geológica revelam que, em espaços de algumas centenas de quilômetros, sua potencialidade pode variar drasticamente. Enquanto algumas áreas são excelentes, em outras a água é inacessível, escassa ou não-potável |
| por José Luiz Flores Machado |
 |
Milton Rodrigues/Gerson Martins |
 |
|
 |
Maio de 1996. Em um workshop em Curitiba, o geólogo uruguaio Danilo Anton propôs o nome Guarani a uma camada aqüífera que, imaginava-se, seria transfronteiriça entre os quatro países que então formavam o bloco econômico do Mercosul. Este aqüífero chegou a ser considerado e divulgado na imprensa como o maior do mundo e seria constituído de um megarreservatório de água subterrânea doce e potável. Suas reservas estratégicas poderiam abastecer a população brasileira por cerca de 2.500 anos. De fato, diante desse cenário seria possível excluir de nossas preocupações uma futura crise da água, pois a Natureza nos teria presenteado com uma fonte de água subterrânea de boa qualidade e quase inesgotável.
Mas esses dados, em grande proporção fantasiosos, têm sido revistos por pesquisas com rigor científico que, em vez de diminuir sua importância para o futuro do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, procuram avaliar de forma mais realista sua ocorrência. A divulgação da existência de um grande aqüífero, entretanto, foi extremamente importante, pois, além de colocar em discussão o papel das águas subterrâneas no abastecimento futuro desses países, atraiu também o interesse do público leigo pelo tema.
Ainda não existem estudos detalhados sobre toda a área de ocorrência do Aqüífero Guarani no Brasil e nos outros paí-ses do Mercosul. Entretanto, teria sido melhor denominá-lo "Sistema Aqüífero Guarani", já que se trata de um conjunto heterogêneo de "unidades hidroestratigráficas" que podem conter muita, pouca ou nenhuma água. Sinteticamente, essas unidades poderiam ser descritas como formações geológicas portadoras de água, em maior ou menor quantidade. Algumas delas, exploradas há mais de cem anos, já foram estudadas por pesquisadores dos países do Mercosul.
No Brasil, oito estados abrigam partes do Aqüífero Guarani. Estudos realizados em quase todos indicaram grande descontinuidade na estruturação geológica. Isso ocorre, por exemplo, no Arco de Ponta Grossa (Paraná), onde as estruturas geo-lógicas e as intrusões vulcânicas dividem o sistema aqüífero em diversos fluxos independentes e limitados ao Brasil.
O estado de São Paulo apresenta excelente conformação estrutural, o que facilita a recarga, circulação e descarga das águas subterrâneas. (A recarga ocorre principalmente pela penetração das águas de chuva, e a descarga é a saída da água do subsolo, em direção aos rios ou outras estruturas geológicas, após lenta circulação no aqüífero.) O fluxo das águas, entretanto, não é transfronteiriço, restringindo-se aos limites paulistas. No Brasil, São Paulo está entre os estados mais privilegiados, pois é onde a potencialidade do Aqüífero Guarani mais se aproxima da noção divulgada pela imprensa. |
|
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » |
| José Luiz Flores Machado é geólogo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diplomado em hidrogeologia pela Universidad de Madrid (UCM). Seu doutorado em geologia sedimentar pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) foi sobre geologia e estruturação do Sistema Aqüífero Guarani no Rio Grande do Sul. Desde 1976 é geólogo da CPRM/Serviço Geológico do Brasil, e atualmente coordena e executa estudos hidrogeológicos. |
|
|
|
|
|
|
|
|