Reportagem
  
edição 13 - Junho 2003
A saga revivida de Ötzi, o Homem do Gelo
Onde ele vivia e o que fazia no desfiladeiro onde morreu? Um estudo meticuloso - principalmente dos restos vegetais encontrados em seu corpo - reformula muitas das especulações iniciais.
por Jim Dickson, Klaus Oeggl e Linda Handley
O HOMEM DO GELO foi descoberto em uma depressão rochosa nos Alpes, uma área de neve e gelos eternos. A pressão do gelo que o cobria retirou parte do seu couro cabeludo. O cadáver estava de bruços, caído sobre um rochedo. Ao contrário das hipóteses iniciais, evidências indicam que ele teria sido arrastado para aquela posição por sucessivos degelos
Num dia claro de setembro de 1991, um casal de montanhistas caminhando pela cordilheira dos Alpes deparou-se com um cadáver. Autoridades locais presumiram ser o corpo de um dos alpinistas que desaparecem todo ano nas fendas entre as geleiras da região. Mas depois de enviarem o corpo para uma cidade próxima, Innsbruck, na Áustria, Konrad Spindler, arqueólogo da universidade local, declarou que o cadáver era pré-histórico. A vítima, um homem, morrera há milhares de anos. Spindler e outros pesquisadores deduziram que o corpo e objetos que ele carregava foram preservados até que uma tempestade de poeira vinda do Saara e um período excepcionalmente quente se combinaram para derreter o gelo, expondo o corpo.

Corpos bem preservados da Europa do Neolítico, até então nunca haviam sido encontrados. O Homem do Gelo é muito mais antigo que os homens da Idade do Ferro das turfeiras da Dinamarca e precede até as múmias egípcias. Quase tão impressionante quanto sua idade, foi encontrar suas roupas e acessórios.

Na excitação que se seguiu à descoberta, sobraram especulações na imprensa e no mundo acadêmico. De acordo com a hipótese de Spindler, o homem teria fugido para a segurança das montanhas depois de ser ferido numa luta em sua aldeia. Era outono, interpretou Spindler, e o homem procurou refúgio nas pastagens elevadas para onde levava seus rebanhos no verão. Ferido e em estado de exaustão, caiu no sono e morreu sobre um rochedo, onde foi encontrado cinco mil anos mais tarde. A impressionante preservação do corpo teria resultado de uma tempestade de neve que o protegeu dos abutres, seguida de rápido congelamento-ressecamento.

Como a singularidade da descoberta não foi imediata, a forma como o cadáver foi retirado do gelo destruiu muitas informações arqueológicas e afetou o próprio corpo. Uma escavação mais completa do sítio foi feita no verão de 1992 e revelou muitas evidências valiosas, entre as quais grande quantidade de material orgânico (sementes, folhas, madeira, musgos). Agora, depois de uma década de pesquisas de laboratório com esses restos, incluindo resíduos retirados dos intestinos do Homem do Gelo, alguns fatos substituem as primeiras impressões por uma história mais consistente.
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Jim Dickson, Klaus Oeggl e Linda Handley têm um interesse comum pelas plantas que Ötzi pode ter usado em sua vida cotidiana. Dickson, professor de arqueobotânica e de classificação de plantas da University of Glasgow, recebeu a medalha Neill, prêmio da Royal Society of Edinburgh. Escreveu mais de 150 artigos e 5 livros, entre os quais Plants and People in Ancient Scotland (Tempus Publishing, 2000). Oeggl é professor de botânica da University of Innsbruck, Áustria. É especialista em arqueobotânica e um dos organizadores do livro The Iceman and His Natural Environment (Springer-Verlag, 2000). Handley, ecofisiologista do Scottish Crop Research Institute, sediado em Invergowrie, Escócia, especializou-se no estudo de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio em plantas e solosP.
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