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Reportagem

A trilha de sangue do marfim

A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento

Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
JEFF HUTCHENS REPORTAGEM DE GETTY IMAGES
ZONA MORTA. Este elefante foi abatido dentro do Parque Nacional Zakouma, no Chade, em outubro passado, quando caçadores dispararam com armas automáticas contra uma manada que pastava. É apenas uma das estimadas 38 mil vítimas anuais do comércio ilegal de marfim.
Em 1983, enquanto explorava uma pequena floresta denominada Malundwe, numa extremidade da Reserva de Caça de Selous na Tanzânia, um de nós (Wasser) encontrou dois crânios de elefantes dispostos lado a lado. Um deles, de fêmea, era grande, e o outro pequeno – os molares tinham um quarto do tamanho dos da fêmea e ainda não tinham sido usados o bastante para exibir vestígios de desgaste. Um guarda nos contou que, inicialmente, os caçadores atiraram no elefante jovem para atrair a mãe aflita, perto o suficiente para matá-la e extraírem suas enormes presas. Essa exploração dos laços de família do sofisticado sistema social dos elefantes se repete indefinidamente na África.

A Reserva de Caça de Selous é a maior área africana protegida, no entanto, estava entre as mais invadidas durante as divulgadas matanças ocorridas entre 1979 e 1989. Pelo menos 700 mil elefantes foram mortos durante esse período – 70 mil apenas em Selous. Depois, em 1989, o novo diretor de vida selvagem da Tanzânia lançou uma grande operação contra a caça ilegal, denominada Uhai. O esforço combinado de guardas florestais, policiais e militares, rapidamente acabou com a maior parte da caça ilegal no país.

Depois, a Tanzânia uniu-se a seis outros países, organizando uma bem-sucedida petição para o acordo gerenciado pela ONU, conhecido como Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites, na sigla em inglês) colocando o elefante africano na lista como uma espécie constante do Apêndice I. Este regulamento baniu com eficiência todo o comércio internacional de elefantes e seus produtos. A publicidade gerada pelo assunto tornou o sentimento público tão forte contra o comércio de marfim que quase eliminou a demanda de marfim no mundo todo; em resposta, a maior parte da caça ilegal cessou abruptamente. Os países ocidentais ajudaram a manter a calmaria despejando grandes somas de auxílio para os esforços contra as caça ilegal em toda a África. Coletivamente, este foi talvez o ato mais eficaz de legislação internacional sobre a vida selvagem na história, e a pressão pública foi um instrumento para seu sucesso.
MICHAEL FREEMAN AURORA PHOTOS
Mas a trégua durou pouco. Alguns países africanos se opuseram ao banimento continental desde o princípio e nunca pararam de defender a sua reversão. A ajuda dos países ocidentais escasseou, deixando os países pobres africanos com bastante equipamento contra a caça ilegal, mas nenhum dinheiro para a sua manutenção. O marfim também se tornou símbolo de status da classe média emergente em países industrializados do Extremo Oriente, como a China e o Japão. A demanda dessas nações e de outros países ricos, incluindo os Estados Unidos, elevou o preço de atacado do marfim de alta qualidade de US$ 200 por kg em 2004, para US$ 850 por kg em 2007. O preço dobrou novamente até 2009. As autoridades chinesas estimaram o valor de varejo de 790 kg de marfim confiscado no sul da China em março de 2008 a US$ 6.500 por kg.

Sob a pressão de países africanos que queriam vender marfim, e de países asiáticos que queriam importá-lo, a Cites, enfim, decidiu permitir duas vendas legais isoladas de estoques desse material. Em cada caso, o marfim deveria ser obtido apenas por mortes naturais, ou por refugo legal de animais com problemas. Os países tiveram de se candidatar separadamente para participar da venda e demonstrar progresso na diminuição de comércio ilegal de marfim. Um programa de monitoramento também foi estabelecido para deter minar se as vendas legais promoveriam caças ilegais crescentes (embora esses dados nunca tivessem sido considerados como suficientes para responder esta questão).

Até 2006, de forma discutível, a caça ilegal tinha se tornado mais intensa que antes do banimento. Nesse ano, entre 25 mil e 29 mil kg de marfim foram confiscados em deslocamento da África. Importantes organizações criminosas se envolveram no comércio, ansiosas para se capitalizar com esta demanda crescente, especialmente porque o risco de processo permanecia baixo e a liberalização do comércio global facilitava a movimentação de grandes volumes de contrabando. Baseados no confisco de 2006, estimamos que mais de 8% das populações de elefantes africanos são dizimados anualmente. Essa taxa de mortalidade excede o índice anual de 6%, de reprodução de elefantes em condições excelentes e até a taxa de mortalidade anual de caça ilegal de 7,4% que motivou o banimento.
PATRICK ROBERT Corbis
MERCADO BRANCO. Mercados livres de marfim como este em Kinshasa, na República Democrática do Congo, se expandiram para apoiar o crescente comércio de marfim. Mas a explosão real da demanda de marfim é conduzida pelas nações industrializadas do Extremo Oriente, onde as pessoas usam sinetes denominados hankos (abaixo à esquerda) para carimbar documentos.
Para cessar essa matança, agentes da lei devem concentrar suas operações nos locais onde os elefantes estão sendo caçados.

No entanto, até recentemente, e de forma geral, os investigadores foram incapazes de rastrear sequer uma caixa de produto contrabandeado até o local onde os elefantes foram mortos. Um carregamento ilegal pode ter sido caçado em um país, processado em outro e embarcado em um terceiro.

O conhecimento do local onde os elefantes estão sendo mortos também ajuda a pressionar os países com operações ineficientes contra a caça ilegal. Além disso, o padrão da origem geográfica pode fornecer indícios de como os caçadores ilegais operam. Se, por exemplo, a maioria do marfim de um lote vem de um lugar comum, podemos concluir que os caçadores ilegais têm em vista uma população específica de elefantes. Nesse caso, os agentes da lei devem buscar um círculo bem organizado e exclusivo de caçadores ilegais. Em contraposição, se o marfim de determinado lote vem de locais bem distantes, os traficantes podem estar adquirindo seus estoques por meio de uma rede de compras oportunistas de comerciantes ocasionais.

Em um esforço para relacionar um lote à sua fonte, desenvolvemos métodos forenses de estudo de DNA para determinar onde a caça ilegal de elefantes se concentra na África. Nossos métodos de estudo de moléculas são semelhantes aos usados para comparar evidências de cenas de crime, como o sangue humano e outros tecidos, com suspeitos específicos. Embora, nesse caso, o material do local do crime seja o marfim, que estamos tentando combinar com as populações de elefantes na África.
JAPAN WILDLIFE CONSERVATION SOCIETY
CONFISCO SEM SOLUÇÃO. Apenas semanas após as apreensões em Hong Kong e Taiwan, as autoridades de Osaka, Japão, confiscaram 608 peças de marfim bruto totalizando 2,8 toneladas. O governo ainda não forneceu amostras para a análise de DNA, sendo impossível dizer com certeza a origem do marfim. No entanto, as evidências circunstanciais, como as letras em suaíli em várias presas, apontam a Tanzânia como lugar de origem (o suaíli é falado basicamente na Tanzânia e no Quênia).
Descrevemos aqui como aplicamos nossos métodos em três confiscos, todos feitos no espaço de dois meses entre um e outro, em 2006. Combinados, esses confiscos representaram quase 11 toneladas de marfim contrabandeado, mais de um terço da grande iniciativa recorde de 25 mil a 29 mil kg confiscados em 2006. Poucas populações podem sustentar esse nível de caça ilegal. Se esse marfim veio de elefantes que vivem em uma área geográfica relativamente confinada, é evidente que uma das maiores organizações de marfim do mundo está por trás da matança.

Os Confiscos
SEGUNDA-FEIRA, 3 DE JULHO, 2006, PORTO KAOHSIUNG, TAIWAN
– Um rastreamento automático rotineiro de cargas alerta os funcionários alfandegários taiwaneses, em Kaohsiung, em relação a dois contêineres suspeitos que saíram da Tanzânia e estão no porto a caminho das Filipinas, tendo passado por Kaohsiung uma vez antes, durante a mesma viagem de navio. Os contêineres parecem estar parando em diferentes portos do Extremo Oriente sem aparente destino final. Os funcionários verificam os documentos de embarque originais e os papéis indicam que os contêineres contêm fibra de sisal. No entanto, a exportação de sisal da África para as Filipinas seria como enviar bolas de neve para a Suécia ou a Sibéria. As Filipinas produzem toneladas da planta fibrosa. Os inspetores decidem abrir um dos contêineres. Lá, escondidas entre 60 fardos de sisal, eles descobrem 744 presas de elefante. O segundo contêiner continha mais 350 presas, totalizando 5,2 toneladas de marfim africano ilegal, com o valor estimado de venda no atacado de US$ 4,6 milhões e o valor de varejo “nas ruas”, superior a US$ 21 milhões.

SÁBADO, 8 DE JULHO, 2006, SAI YING PUN, ILHA DE HONG KONG – Cinco dias após o confisco em Taiwan, um morador local denuncia um cheiro horrível de queimado vindo do apartamento vizinho. A polícia e os bombeiros comparecem rapidamente. Ninguém responde às batidas na porta. Assim eles forçam a entrada, descobrem sete pessoas cortando e embalando o que seriam 2,6 toneladas de marfim. O governo de Hong Kong confisca 390 presas e outros 121 pedaços já cortados. Algumas pistas sugerem a origem na África Oriental.
SEGUNDA-FEIRA, 28 DE AGOSTO, 2006 – PORTO DE OSAKA, JAPÃO – A alfândega japonesa descobre 608 pedaços de marfim bruto que, quando combinados com cuidado, produzem 260 presas inteiras. São 2,8 toneladas, o maior confisco já registrado no Japão. Muitas presas estão numeradas com a escrita suaíli, sugerindo a origem do carregamento na África Oriental. Também na remessa em questão havia 17.928 cilindros de marfim esculpidos, obviamente visando o mercado de sinetes de assinatura, ou hankos. Os japoneses e os chineses gravam o seu carimbo individual em um dos lados desses sinetes e os usam para chancelar seus cheques pessoais, documentos legais e cartas. (Embora atualmente seja um dos usos mais difundidos do marfim, este é um costume relativamente recente; os hankos, historicamente, eram feitos de materiais como o jade.) No entanto, os japoneses não registram o confisco na reunião do comitê do Cites de 2006, que decidiria sobre a permissão para o Japão ser comprador da venda única de marfim no sul da África. Em 7 de outubro de 2006, o jornal Asahi Shimbum revela a história, e o governo japonês admite o carregamento em seguida.

Quando soubemos dos confiscos, requisitamos amostras do marfim para que pudéssemos submetê-las à análise do DNA no University of Washington Center for Conservation Biology. Os resultados seriam compartilhados com os países doadores, a Interpol e a Força Tarefa do Acordo de Lusaka, uma agência de países africanos que cooperam para o combate do crime contra a vida selvagem. Hong Kong e Taiwan concordaram voluntariamente em fornecer as amostras de marfim. Apesar de inúmeros pedidos, o governo japonês ainda não enviou nenhuma amostra.

Mapa do DNA
Extraímos o DNA do marfim usando uma técnica de pulverização originária de técnicas forenses dentárias. Colocamos um pedaço de marfim do tamanho aproximado de um amendoim dentro de um tubo de policarbonato junto com um ímã e vedamos o tubo com tampões de aço inoxidável. A seguir, colocamos a amostra em nitrogênio líquido à temperatura de -240ºC dentro de um equipamento denominado moinho criogênico, especial para a pulverização a frio. Há um campo magnético que oscila rapidamente para a frente e para trás, esmagando o marfim nos tampões e transformando-o em um pó fino. Durante esse processo a baixa temperatura mantém a integridade do DNA. Depois, usando técnicas tradicionais, isolamos o DNA do pó e obtemos um perfi l da variação dos segmentos de DNA, denominados microssatélites, para conseguirmos uma impressão digital do DNA. Os microssatélites consistem em algo entre dois a quatro nucleotídeos que se repetem de dez a 100 vezes. Diferentemente de genes funcionais, os mi crossatélites de DNA não codificam proteínas. Assim, os números de repetição nos microssatélites podem variar sem afetar a saúde do organismo ou sua capacidade de reprodução, e mudanças no número de repetição tendem a aumentar com freqüência e a persistir. Assim, com o tempo, os microssatélites acabam diferindo em populações separadas geograficamente.
Com a impressão digital do DNA de repetições de microssatélites de uma presa à mão, podemos compará-la com um mapa de impressões digitais de DNA de elefantes de toda a África. Há uma década começamos a criar um mapa de referência de todo o continente que exibiria as variações dos microssatélites de DNA. Este projeto acabou se tornando um desafio muito maior que antecipávamos.

A África é um continente enorme e a precisão de nossas tarefas com o marfim está diretamente ligada à abrangência de nosso mapa de DNA, criado a partir de populações de elefantes da forma menos invasiva possível – por meio das fezes. Cada grama de fezes de elefante contém DNA de milhões de células advindas da mucosa intestinal. A coleta de fezes em quantidade suficiente para criar um mapa de referência de toda a África exigiu a ajuda de vários cientistas e guardas florestais, e somos gratos a eles pelo trabalho. Porém, por mais amostras de fezes de elefantes que pudéssemos coletar, nunca teríamos o suficiente para cobrir completamente todo o continente.

Para preencher trechos carentes de informações, usamos uma técnica estatística criada por nós, denominada técnica de atribuição contínua alisada (SCAT, na sigla em inglês) smoothed continuous assignment technique. Um software usando o método SCAT projeta informações coletadas em locais específicos para compor uma distribuição geográfica contínua de impressões digitais de DNA – os comprimentos de microssatélites de DNA em cada um dos 16 loci – de todas as variedades de elefantes. Este método se baseia no fato de que as populações vizinhas tendem a ser geneticamente mais parecidas que as mais distantes. Validamos o procedimento SCAT usando-o para determinar a origem de amostras de fezes obtidas de locais conhecidos.

Anatomia de um Carregamento
Inicialmente usamos o nosso método de indicação de DNA para um caso que exemplifica a magnitude e complexidade do comércio moderno de marfim. Em fevereiro de 2002, funcionários do governo de Malavi, trabalhando junto com as autoridades da Zâmbia e a força-tarefa do Acordo Lusaka, invadiram uma fábrica familiar de entalhe de marfim, que ostensivamente utilizava marfim adquirido legalmente do governo de Malavi. No entanto, a fábrica tinha muito mais marfim que a documentação legal mostrava e, de fato, poucas amostras continham o selo governamental necessário. O confisco incluiu vários pedaços de marfim que exibiam buracos dos quais haviam sido extraídos pequenos cilindros. Acredita-se que esses cilindros sejam sinetes de assinatura hanko destinados ao Japão (os japoneses tradicionalmente preferem sinetes cilíndricos, enquanto os chineses preferem os quadrados).
Os registros detalhados recuperados na operação em Malavi descreveram 19 carregamentos independentes feitos por esses traficantes durante os nove anos anteriores. Todas as cargas identificavam o mesmo remetente, os mesmo códigos de embarque (seja pedra-sabão ou serragem) e a mesma origem. Quase todos tinham o mesmo destino. Um dos pedidos incluía um carregamento de 6,5 toneladas de marfim (registrado como pedra-sabão), que estava em um local escondido, aguardando a remessa.

Naquele mês de junho, as autoridades souberam rapidamente que o marfim que faltava estava sendo levado de caminhão para Beira, Moçambique, e carregado em um navio com destino a Durban, na África do Sul, onde seria transferido para uma outra embarcação para Cingapura. As autoridades locais foram notificadas do carregamento apenas quatro horas antes de sua chegada e confiscaram o contêiner. A carga incluía 532 presas, com o peso excepcionalmente grande de 12 kg por peça, e 42 mil selos hanko. Os sinetes eram cilíndricos, e seu diâmetro combinava com os buracos nos pedaços de marfim confiscados em Malavi. Várias presas confiscadas tinham a marca “Yokohama”, uma cidade portuária próxima a Tóquio.

Os documentos de embarque recuperados na operação em Malavi não listavam o peso de 18 outros carregamentos ilegais de marfim. Se supusermos que cada carregamento era semelhante em tamanho ao do confisco em Cingapura, juntos representariam cerca de 110 toneladas de marfim, ou aproximadamente o equivalente a 17 mil elefantes abatidos.

A enorme quantidade de contrabando confiscado foi um indicador marcante do crescimento do comércio ilícito de marfim. Também revelou o quanto dele é controlado por grandes organizações criminosas. O transporte de tamanha quantidade de marfim exige especialização no comércio de commodities, finanças internacionais e outros requisitos comerciais. O negócio demanda significativa infra-estrutura no Extremo Oriente, capaz de receber e processar toneladas de marfim, fábricas que possam produzir dezenas de milhares de hankos por ano, uma rede de marketing e distribuição e varejo para comercializá-los. Os milhões de dólares gerados pelas vendas de vem ser lançados ilegalmente por meio de canais legais de negócios e depois movimentados pelo mundo para pagar novos embarques. Além disso, o suborno de alto nível é evidente. Houve relatórios de caçadores usando grande volume de produtos de origem silvestre como moeda de barganha para as armas e a munição necessárias para manter os funcionários corruptos no poder.
E se o lucro é alto, o risco dos traficantes é baixo. Poucos grandes traficantes de vida silvestre são processados, porque o crime contra a Natureza geralmente é considerado de baixa prioridade entre os órgãos mantenedores da lei quando comparado com o terrorismo, o tráfico de drogas, o assassinato e os crimes financeiros. Virtualmente, ninguém envolvido no confisco de Cingapura foi processado, nem mesmo os agentes da alfândega que assinaram o documento declarando que o marfim era pedra-sabão. Em vários outros países, as penalidades para os que foram pegos são mais baratas que o pagamento de imposto por vendas.

Rápido e Eficiente
Embora os investigadores tenham fortes suspeitas de que o marfim confiscado em Cingapura tenha sido processado naquele local em Malavi, a análise do DNA foi necessária para mostrar que as amostras vieram da mesma fonte. Nossa pesquisa demonstrou que todo o marfim teve uma origem comum. As presas e os sinetes hanko do confisco em Cingapura, além dos pedaços de marfim apreendidos na fábrica de Malavi se originam de uma população de elefantes de savana que se concentra na Zâmbia. Uma conexão dos hankos com a mesma população das presas embargadas em Cingapura explica a ausência misteriosa de presas pequenas a médias durante a ação. As presas pequenas provavelmente foram retalhadas em hankos na fábrica de entalhe de marfim em Malavi. Quase que certamente, essa estratégia serviu para aumentar o valor do carregamento para o mercado japonês, pois historicamente os japoneses preferem presas grandes. Também indicam que animais de todas as idades foram vítimas desses caçadores. É preciso um número muito grande de elefantes jovens para fornecer marfim suficiente a fim de manufaturar 42 mil sinetes.

Esse cerco de 2002 ocorreu no mesmo ano em que a Zâmbia pediu à Cites permissão para a venda isolada de estoque de marfim ao Extremo Oriente. No entanto, a Cites acabou rejeitando a proposta, até certo ponto devido às suspeitas de que algum do marfim recuperado em Cingapura era originário da Zâmbia. Nossos resultados ajudaram a validar essa decisão.
As análises do marfim do confisco de Cingapura mostraram que, pela primeira vez, os caçadores tinham em vista populações específicas para a exploração intensiva. As populações foram atingidas rápida e eficientemente, presumivelmente para satisfazer pedidos específicos dos compradores. Essa descoberta contradiz a crença mais comum de que os traficantes empregavam um plano descentralizado de coleta de grande pedidos, para oportunamente garantir estoques de marfim conforme eles se tornassem disponíveis em toda a África. Também indicou que o uso de técnicas para concentrar o uso da lei em locais identificados provou-se uma estratégia viável contra a caça ilegal.

Negócios como Sempre
Nossos estudos mais recentes sobre os confiscos no verão de 2006, em Taiwan e Hong Kong, mostram apenas o quanto a destruição corrente reflete a matança da década de 80. As operações de 2006 também envolveram um alto nível de organização e muita intriga política. Nossa análise de DNA revelou que as presas vinham de uma área centrada no ecossistema de Selous na Tanzânia, espalhando-se para a Reserva de Caça do Niassa no norte de Moçambique. Parece que a Tanzânia mais uma vez se tornou o núcleo da atividade de caça ilegal. Esse é o país que abriga o Parque Nacional de Serengueti; o rio Gombe, onde Jane Goodall fez o seu famoso estudo sobre os chimpanzés; o monte Kilimanjaro; as montanhas do Arco Oriental, um local famoso mundialmente, à beira do Selous, que tem mais espécies endêmicas por quilômetro quadrado que qualquer outro lugar no mundo; e claro, a própria Reserva de Caça de Selous. A Tanzânia fez uma petição ao Cites para vender o marfim em estoque naquele mesmo ano, mas retirou o pedido em resposta às pressões internacionais.

Uma questão em aberto é se o marfim confiscado em Osaka também veio da Tanzânia. Enquanto o nosso laboratório analisava as apreensões de Taiwan e de Hong Kong, o governo japonês concluía o seu trabalho sobre o escândalo – a maior tentativa de contrabando de marfim da história japonesa. Em 2007, um tribunal japonês condenou um homem pela tentativa de contrabando de 2,8 t de marfim. Ele recebeu a suspensão da sentença e uma multa equivalente a menos que 1% da taxa alfandegária estimada para o valor do marfim no mercado varejista. Depois, o governo japonês incinerou o marfim, inviabilizando assim a análise do DNA. Porém, manteve cerca de 100 peças pequenas, cada uma com o peso médio de 0,3 g. Entretanto, essas peças não foram entregues e caso fossem, não temos certeza de que poderiam conter DNA sufi ciente para as análises. Antes, no mesmo ano, o Japão recebeu a aprovação final da Cites para a compra de marfim em uma venda legal, que ocorreria em 2008.
Por mais cuidado com que essas vendas sejam monitoradas, elas são problemáticas. A existência de mercados domésticos legais de marfim , especialmente no Extremo Oriente, influencia a percepção do povo e legitima a moda do marfim. Os mercados legais, de forma semelhante, absorvem uma grande quantidade do marfim contrabandeado e fornecem um caminho fácil para a lavagem do resto. De que outra forma poderiam centenas de milhares de entalhes de marfim entrar no comércio consumidor varejista, se não por meio de comerciantes varejistas convencionais?

Os países industriais consumidores, com mercado para o marfim contrabandeado, não têm dado apoio de confiança para as agências de proteção à vida selvagem nos países de habitat dos elefantes na África, apesar do fato de seus cidadãos fornecerem o incentivo financeiro para quase toda a caça ilegal. Os países em desenvolvimento da África são extremamente vulneráveis ao poder e ao dinheiro que as organizações do crime contra a vida selvagem controlam, poder que é aumentado pela riqueza das economias industriais. Embora a análise do DNA possa ajudar a concentrar as iniciativas legais, é preciso mais auxílio para acabar com a matança. Enquanto escrevemos, o morticínio prossegue: em 9 de março de 2009, o governo vietnamita confiscou uma carga de 6,2 toneladas de marfim, que teria sido contrabandeado da Tanzânia. Esse é o segundo maior confisco de marfim desde o banimento.

O sentimento público contribuiu significativamente para a interrupção do comércio ilegal de marfim em 1989, e a melhora da consciência pública sobre o perigo que o elefante corre pode conseguir isso novamente. Pelas nossas estimativas, mais de 38 mil elefantes africanos foram mortos, devido ao marfim, apenas em 2006. Todas as evidências sugerem que a taxa de caça ilegal ainda não diminuiu, e na verdade, há relatos de intensificação de caça em alguns países. Se o comércio ilegal de marfim não for levado a um controle imediatamente, grande parte da África perderá a maioria de seus elefantes livres e o continente nunca mais será o mesmo. Não é um preço grande demais a pagar por uma mercadoria cujo uso principal é a pura vaidade?

CONCEITOS-CHAVE

- Após a quase eliminação da caça ilegal de elefantes que seguiu o banimento internacional do marfim de 1989, a demanda voltou. Atualmente, as populações desses animais vêm sendo dizimadas como nunca.

- Agora os pesquisadores conseguem mapear com exatidão as populações de elefantes em todo o continente africano usando o SCAT em seu DNA.

- Os cientistas usam esse mapa e o DNA extraído do marfim para rastrear os carregamentos ilegais até a sua origem. Os primeiros resultados de três grandes confiscos demonstram que sofisticadas redes do crime têm como alvo grupos específicos para exploração intensiva.
Os editores
JEN CHRISTIANSEN (ILUSTRAÇÃO)NASA/THE VISIBLE EARTH (MAPA-BASE)

[FERRAMENTA DE RASTREAMENTO] - IMPRESSÃO DIGITAL DO DNA

OS PESQUISADORES podem rastrear o marfim roubado de uma população de elefantes, em particular, usando a impressão digital de DNA, uma técnica que analisa sequências de DNA conhecidas como microssatélites.

O BÁSICO DOS MICROSSATÉLITES
Um microssatélite é uma tira de DNA composta por repetições de uma sequência curta de nucleotídeos, ou código de letras.

CÓDIGO DE REPETIÇÃO
Os microssatélites aparecem em partes do genoma aparentemente sem nenhuma função, portanto, o número de repetições pode mudar sem afetar a saúde do organismo. Dessa forma, as mutações tendem a se acumular rapidamente, e os elefantes de populações próximas podem ter comprimentos diferentes de microssatélites. Essas diferenças podem ajudar a distinguir uma população de outra.

O RASTREAMENTO DO MARFIM
Os pesquisadores criam um mapa de referência de impressões digitais de DNA em toda a África, examinando os comprimentos dos diferentes microssatélites de vários indivíduos em locais conhecidos. Depois, quando surge uma presa de marfim desconhecida, eles podem comparar a impressão digital do DNA no mapa das impressões digitais conhecidas de DNA para identificar sua origem aproximada.
NASA/THE VISIBLE EARTH (MAPA-BASE)

[ANÁLISE DE DADOS] - Na Pista dos Caçadores

Os cientistas e voluntários coletaram amostras de fezes de elefantes em toda a África para identificar a impressão digital do DNA deles nessas localidades (pontos laranjas e verdes). Os pesquisadores usaram essas informações para construir um mapa sobre como as impressões digitais de DNA variam pelo continente, depois compararam o DNA de presas, obtidas ilegalmente, com o mapa. Aqui os resultados das apreensões de 2006 em Hong Kong e Taiwan demonstram fortes evidências de que o marfim foi obtido de uma área relativamente pequena na fronteira da Tanzânia e de Moçambique, que inclui as Reservas de Caça de Selous e do Niassa.

QUANTOS ELEFANTES ESTÃO SENDO MORTOS?

A caça ilegal desmedida no período entre 1979 e 1989 reduziu a população de elefantes em toda a África de 1,3 milhão para menos que 600 mil animais, uma perda de 7,4% por ano. Vamos rapidamente para 2006, e o comércio ilegal de marfim já subiu novamente a patamares inesperados. Entre agosto de 2005 e agosto de 2006, as autoridades confiscaram mais de 25 toneladas de marfim. A alfândega calcula, em geral, que uma taxa de confisco de contrabando de 10% para “produtos em geral” é bem-sucedida, portanto os autores calculam que mais de 250 toneladas de marfim foram contrabandeadas naquele ano. Usando a estimativa comumente aceita de 6,6 kg de marfim por elefante, concluíram que 38 mil elefantes – 8% da população total do paquiderme em toda a África – vêm sendo dizimados anualmente.
KWAI CHOW WONG Getty Images

Os elefantes não são os únicos

O tráfico ilegal de animais e plantas silvestres de várias espécies e de seus produtos vem proliferando em todo o mundo, excedendo de longe a capacidade de monitoramento e de coação. Estudos sérios de fontes diversas indicam que o comércio ilegal de espécies silvestres pode ser calculado em dezenas de bilhões de dólares, anualmente. A liberalização do comércio global tem ajudado a abrir o mercado para produtos ilegais de animais selvagens, assim como a tecnologia: pesquisas recentes indicam quantidades significativas de marfim de origem duvidosa sendo oferecido para venda na internet. O considerável comércio legal de espécimes silvestres raros – mais de 100 milhões de espécies raras são compradas e vendidas todos os anos sob controle do Cites – que também oferece a conduta ideal em relação ao comércio ilegal. Quanto ao marfim, está ficando claro que as organizações criminosas estão por trás de grande parte dele. Nos últimos anos, as autoridades fizeram uma série de batidas enormes e desconcertantes, confiscando 55 mil peles de répteis na Índia, 19 mil barbatanas de tubarão-raposa no Equador, 23 toneladas de pangolins na Ásia, três mil xales shahtoosh tibetanos de, pelo menos, 12 mil antílopes na Índia e 2 mil tartarugas-estrela-indianas também na Índia. – S.K.W.
JOHN HRUSA Corbis

Há elefantes demais?

Depois do banimento do marfim, algumas pessoas se convenceram do mito que a África agora tem elefantes demais. Reportagens da mídia se concentraram em um pequeno número de países no sul da África que solicitaram a seleção legal de elefantes por causa da alta densidade populacional em áreas de proteção como os refúgios de vida selvagem; os crescentes confl itos entre os homens e os elefantes pareciam apoiar essas demandas. No entanto, o problema é muito mais complicado que aparenta.

A maioria das áreas de proteção com alta densidade de elefantes no sul da África é cercada,
restringindo severamente a movimentação natural dos animais. Muitos mais países da África, incluindo várias nações do sul vêm exibindo declínios substanciais entre os elefantes devido à caça ilegal. Os debates acirrados sobre essa seleção legal dos animais frequentemente escondem esses pontos; no entanto, eles oferecem uma solução mais simples: a destruição de cercas e a criação de megaparques que transcendam as fronteiras internacionais. Muitas populações cercadas estão na fronteira de países com densidades baixas de populações humanas e de elefantes, oferecendo área considerável para o movimento destes. Os megaparques diluiriam quaisquer bolsões de alta densidade de elefantes, absorvendo assim o impacto no resto da cadeia alimentar.

Também não existe concordância quanto aos motivos para o conflito entre o homem e o elefante, que parece acontecer com mais frequência quando os elefantes vagam fora de suas áreas de proteção para dentro das fazendas nas proximidades.

A perda de hábitat é geralmente citada como o motivo principal, mas o efeito da caça ilegal sobre as estruturas sociais do elefante também desempenha um papel bem importante. Fêmeas adultas mais velhas têm sido as primeiras a ser caçadas – juntamente com os machos adultos grandes, elas têm presas maiores, e os grupos sociais femininos são mais fáceis de serem caçadas que os de machos adultos solitários. Um estudo de 1989 descobriu que 80% dos crânios recuperados de elefantes caçados ilegalmente eram de fêmeas, com a idade média de 32 anos. Essas velhas paquidermes, denominadas matriarcas, desempenham um papel essencial na sociedade dos elefantes, dirigindo os movimentos do grupo, mantendo a situação competitiva do grupo e a coesão social. Com a perda dos líderes e com as áreas de proteção não sendo mais um porto seguro devido à caça ilegal, os animais ficam vagando. Na verdade, êxodos maciços de elefantes foram documentados durante as matanças que ocorreram nas guerras civis de Moçambique, Angola e outros lugares. Esses elefantes sem líderes saem de suas áreas de proteção e confundem seus protetores com aqueles que os caçam por dinheiro. – S.K.W

PARA CONHECER MAIS

Elephant reflections. Fotografias de Karl Ammann. Texto de Dale Peterson. University of California Press, 2009.

The center for conservation biology/University of Washington. www.conservationbiology.net

Animal investigators: how the world’s fi rst wildlife forensics lab is solving crimes and saving endangered species. Laurel A. Neme. Scribner, 2009

Combating the illegal trade in African elephant ivory with DNA forensics. Samuel K. Wasser et al., em Conservation Biology, vol. 22, nº 4, págs. 1065-1071, 2008.