Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
[continuação]

Por mais cuidado com que essas vendas sejam monitoradas, elas são problemáticas. A existência de mercados domésticos legais de marfim , especialmente no Extremo Oriente, influencia a percepção do povo e legitima a moda do marfim. Os mercados legais, de forma semelhante, absorvem uma grande quantidade do marfim contrabandeado e fornecem um caminho fácil para a lavagem do resto. De que outra forma poderiam centenas de milhares de entalhes de marfim entrar no comércio consumidor varejista, se não por meio de comerciantes varejistas convencionais?

Os países industriais consumidores, com mercado para o marfim contrabandeado, não têm dado apoio de confiança para as agências de proteção à vida selvagem nos países de habitat dos elefantes na África, apesar do fato de seus cidadãos fornecerem o incentivo financeiro para quase toda a caça ilegal. Os países em desenvolvimento da África são extremamente vulneráveis ao poder e ao dinheiro que as organizações do crime contra a vida selvagem controlam, poder que é aumentado pela riqueza das economias industriais. Embora a análise do DNA possa ajudar a concentrar as iniciativas legais, é preciso mais auxílio para acabar com a matança. Enquanto escrevemos, o morticínio prossegue: em 9 de março de 2009, o governo vietnamita confiscou uma carga de 6,2 toneladas de marfim, que teria sido contrabandeado da Tanzânia. Esse é o segundo maior confisco de marfim desde o banimento.

O sentimento público contribuiu significativamente para a interrupção do comércio ilegal de marfim em 1989, e a melhora da consciência pública sobre o perigo que o elefante corre pode conseguir isso novamente. Pelas nossas estimativas, mais de 38 mil elefantes africanos foram mortos, devido ao marfim, apenas em 2006. Todas as evidências sugerem que a taxa de caça ilegal ainda não diminuiu, e na verdade, há relatos de intensificação de caça em alguns países. Se o comércio ilegal de marfim não for levado a um controle imediatamente, grande parte da África perderá a maioria de seus elefantes livres e o continente nunca mais será o mesmo. Não é um preço grande demais a pagar por uma mercadoria cujo uso principal é a pura vaidade?
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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