Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
Há elefantes demais?
JOHN HRUSA Corbis
Depois do banimento do marfim, algumas pessoas se convenceram do mito que a África agora tem elefantes demais. Reportagens da mídia se concentraram em um pequeno número de países no sul da África que solicitaram a seleção legal de elefantes por causa da alta densidade populacional em áreas de proteção como os refúgios de vida selvagem; os crescentes confl itos entre os homens e os elefantes pareciam apoiar essas demandas. No entanto, o problema é muito mais complicado que aparenta.

A maioria das áreas de proteção com alta densidade de elefantes no sul da África é cercada,
restringindo severamente a movimentação natural dos animais. Muitos mais países da África, incluindo várias nações do sul vêm exibindo declínios substanciais entre os elefantes devido à caça ilegal. Os debates acirrados sobre essa seleção legal dos animais frequentemente escondem esses pontos; no entanto, eles oferecem uma solução mais simples: a destruição de cercas e a criação de megaparques que transcendam as fronteiras internacionais. Muitas populações cercadas estão na fronteira de países com densidades baixas de populações humanas e de elefantes, oferecendo área considerável para o movimento destes. Os megaparques diluiriam quaisquer bolsões de alta densidade de elefantes, absorvendo assim o impacto no resto da cadeia alimentar.

Também não existe concordância quanto aos motivos para o conflito entre o homem e o elefante, que parece acontecer com mais frequência quando os elefantes vagam fora de suas áreas de proteção para dentro das fazendas nas proximidades.

A perda de hábitat é geralmente citada como o motivo principal, mas o efeito da caça ilegal sobre as estruturas sociais do elefante também desempenha um papel bem importante. Fêmeas adultas mais velhas têm sido as primeiras a ser caçadas – juntamente com os machos adultos grandes, elas têm presas maiores, e os grupos sociais femininos são mais fáceis de serem caçadas que os de machos adultos solitários. Um estudo de 1989 descobriu que 80% dos crânios recuperados de elefantes caçados ilegalmente eram de fêmeas, com a idade média de 32 anos. Essas velhas paquidermes, denominadas matriarcas, desempenham um papel essencial na sociedade dos elefantes, dirigindo os movimentos do grupo, mantendo a situação competitiva do grupo e a coesão social. Com a perda dos líderes e com as áreas de proteção não sendo mais um porto seguro devido à caça ilegal, os animais ficam vagando. Na verdade, êxodos maciços de elefantes foram documentados durante as matanças que ocorreram nas guerras civis de Moçambique, Angola e outros lugares. Esses elefantes sem líderes saem de suas áreas de proteção e confundem seus protetores com aqueles que os caçam por dinheiro. – S.K.W
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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