Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
MICHAEL FREEMAN AURORA PHOTOS
[continuação]

Mas a trégua durou pouco. Alguns países africanos se opuseram ao banimento continental desde o princípio e nunca pararam de defender a sua reversão. A ajuda dos países ocidentais escasseou, deixando os países pobres africanos com bastante equipamento contra a caça ilegal, mas nenhum dinheiro para a sua manutenção. O marfim também se tornou símbolo de status da classe média emergente em países industrializados do Extremo Oriente, como a China e o Japão. A demanda dessas nações e de outros países ricos, incluindo os Estados Unidos, elevou o preço de atacado do marfim de alta qualidade de US$ 200 por kg em 2004, para US$ 850 por kg em 2007. O preço dobrou novamente até 2009. As autoridades chinesas estimaram o valor de varejo de 790 kg de marfim confiscado no sul da China em março de 2008 a US$ 6.500 por kg.

Sob a pressão de países africanos que queriam vender marfim, e de países asiáticos que queriam importá-lo, a Cites, enfim, decidiu permitir duas vendas legais isoladas de estoques desse material. Em cada caso, o marfim deveria ser obtido apenas por mortes naturais, ou por refugo legal de animais com problemas. Os países tiveram de se candidatar separadamente para participar da venda e demonstrar progresso na diminuição de comércio ilegal de marfim. Um programa de monitoramento também foi estabelecido para deter minar se as vendas legais promoveriam caças ilegais crescentes (embora esses dados nunca tivessem sido considerados como suficientes para responder esta questão).

Até 2006, de forma discutível, a caça ilegal tinha se tornado mais intensa que antes do banimento. Nesse ano, entre 25 mil e 29 mil kg de marfim foram confiscados em deslocamento da África. Importantes organizações criminosas se envolveram no comércio, ansiosas para se capitalizar com esta demanda crescente, especialmente porque o risco de processo permanecia baixo e a liberalização do comércio global facilitava a movimentação de grandes volumes de contrabando. Baseados no confisco de 2006, estimamos que mais de 8% das populações de elefantes africanos são dizimados anualmente. Essa taxa de mortalidade excede o índice anual de 6%, de reprodução de elefantes em condições excelentes e até a taxa de mortalidade anual de caça ilegal de 7,4% que motivou o banimento.
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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