Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
JAPAN WILDLIFE CONSERVATION SOCIETY
CONFISCO SEM SOLUÇÃO. Apenas semanas após as apreensões em Hong Kong e Taiwan, as autoridades de Osaka, Japão, confiscaram 608 peças de marfim bruto totalizando 2,8 toneladas. O governo ainda não forneceu amostras para a análise de DNA, sendo impossível dizer com certeza a origem do marfim. No entanto, as evidências circunstanciais, como as letras em suaíli em várias presas, apontam a Tanzânia como lugar de origem (o suaíli é falado basicamente na Tanzânia e no Quênia).
[continuação]

Descrevemos aqui como aplicamos nossos métodos em três confiscos, todos feitos no espaço de dois meses entre um e outro, em 2006. Combinados, esses confiscos representaram quase 11 toneladas de marfim contrabandeado, mais de um terço da grande iniciativa recorde de 25 mil a 29 mil kg confiscados em 2006. Poucas populações podem sustentar esse nível de caça ilegal. Se esse marfim veio de elefantes que vivem em uma área geográfica relativamente confinada, é evidente que uma das maiores organizações de marfim do mundo está por trás da matança.

Os Confiscos
SEGUNDA-FEIRA, 3 DE JULHO, 2006, PORTO KAOHSIUNG, TAIWAN
– Um rastreamento automático rotineiro de cargas alerta os funcionários alfandegários taiwaneses, em Kaohsiung, em relação a dois contêineres suspeitos que saíram da Tanzânia e estão no porto a caminho das Filipinas, tendo passado por Kaohsiung uma vez antes, durante a mesma viagem de navio. Os contêineres parecem estar parando em diferentes portos do Extremo Oriente sem aparente destino final. Os funcionários verificam os documentos de embarque originais e os papéis indicam que os contêineres contêm fibra de sisal. No entanto, a exportação de sisal da África para as Filipinas seria como enviar bolas de neve para a Suécia ou a Sibéria. As Filipinas produzem toneladas da planta fibrosa. Os inspetores decidem abrir um dos contêineres. Lá, escondidas entre 60 fardos de sisal, eles descobrem 744 presas de elefante. O segundo contêiner continha mais 350 presas, totalizando 5,2 toneladas de marfim africano ilegal, com o valor estimado de venda no atacado de US$ 4,6 milhões e o valor de varejo “nas ruas”, superior a US$ 21 milhões.

SÁBADO, 8 DE JULHO, 2006, SAI YING PUN, ILHA DE HONG KONG – Cinco dias após o confisco em Taiwan, um morador local denuncia um cheiro horrível de queimado vindo do apartamento vizinho. A polícia e os bombeiros comparecem rapidamente. Ninguém responde às batidas na porta. Assim eles forçam a entrada, descobrem sete pessoas cortando e embalando o que seriam 2,6 toneladas de marfim. O governo de Hong Kong confisca 390 presas e outros 121 pedaços já cortados. Algumas pistas sugerem a origem na África Oriental.
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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