Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
[continuação]

SEGUNDA-FEIRA, 28 DE AGOSTO, 2006 – PORTO DE OSAKA, JAPÃO – A alfândega japonesa descobre 608 pedaços de marfim bruto que, quando combinados com cuidado, produzem 260 presas inteiras. São 2,8 toneladas, o maior confisco já registrado no Japão. Muitas presas estão numeradas com a escrita suaíli, sugerindo a origem do carregamento na África Oriental. Também na remessa em questão havia 17.928 cilindros de marfim esculpidos, obviamente visando o mercado de sinetes de assinatura, ou hankos. Os japoneses e os chineses gravam o seu carimbo individual em um dos lados desses sinetes e os usam para chancelar seus cheques pessoais, documentos legais e cartas. (Embora atualmente seja um dos usos mais difundidos do marfim, este é um costume relativamente recente; os hankos, historicamente, eram feitos de materiais como o jade.) No entanto, os japoneses não registram o confisco na reunião do comitê do Cites de 2006, que decidiria sobre a permissão para o Japão ser comprador da venda única de marfim no sul da África. Em 7 de outubro de 2006, o jornal Asahi Shimbum revela a história, e o governo japonês admite o carregamento em seguida.

Quando soubemos dos confiscos, requisitamos amostras do marfim para que pudéssemos submetê-las à análise do DNA no University of Washington Center for Conservation Biology. Os resultados seriam compartilhados com os países doadores, a Interpol e a Força Tarefa do Acordo de Lusaka, uma agência de países africanos que cooperam para o combate do crime contra a vida selvagem. Hong Kong e Taiwan concordaram voluntariamente em fornecer as amostras de marfim. Apesar de inúmeros pedidos, o governo japonês ainda não enviou nenhuma amostra.

Mapa do DNA
Extraímos o DNA do marfim usando uma técnica de pulverização originária de técnicas forenses dentárias. Colocamos um pedaço de marfim do tamanho aproximado de um amendoim dentro de um tubo de policarbonato junto com um ímã e vedamos o tubo com tampões de aço inoxidável. A seguir, colocamos a amostra em nitrogênio líquido à temperatura de -240ºC dentro de um equipamento denominado moinho criogênico, especial para a pulverização a frio. Há um campo magnético que oscila rapidamente para a frente e para trás, esmagando o marfim nos tampões e transformando-o em um pó fino. Durante esse processo a baixa temperatura mantém a integridade do DNA. Depois, usando técnicas tradicionais, isolamos o DNA do pó e obtemos um perfi l da variação dos segmentos de DNA, denominados microssatélites, para conseguirmos uma impressão digital do DNA. Os microssatélites consistem em algo entre dois a quatro nucleotídeos que se repetem de dez a 100 vezes. Diferentemente de genes funcionais, os mi crossatélites de DNA não codificam proteínas. Assim, os números de repetição nos microssatélites podem variar sem afetar a saúde do organismo ou sua capacidade de reprodução, e mudanças no número de repetição tendem a aumentar com freqüência e a persistir. Assim, com o tempo, os microssatélites acabam diferindo em populações separadas geograficamente.
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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