Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
[continuação]

Com a impressão digital do DNA de repetições de microssatélites de uma presa à mão, podemos compará-la com um mapa de impressões digitais de DNA de elefantes de toda a África. Há uma década começamos a criar um mapa de referência de todo o continente que exibiria as variações dos microssatélites de DNA. Este projeto acabou se tornando um desafio muito maior que antecipávamos.

A África é um continente enorme e a precisão de nossas tarefas com o marfim está diretamente ligada à abrangência de nosso mapa de DNA, criado a partir de populações de elefantes da forma menos invasiva possível – por meio das fezes. Cada grama de fezes de elefante contém DNA de milhões de células advindas da mucosa intestinal. A coleta de fezes em quantidade suficiente para criar um mapa de referência de toda a África exigiu a ajuda de vários cientistas e guardas florestais, e somos gratos a eles pelo trabalho. Porém, por mais amostras de fezes de elefantes que pudéssemos coletar, nunca teríamos o suficiente para cobrir completamente todo o continente.

Para preencher trechos carentes de informações, usamos uma técnica estatística criada por nós, denominada técnica de atribuição contínua alisada (SCAT, na sigla em inglês) smoothed continuous assignment technique. Um software usando o método SCAT projeta informações coletadas em locais específicos para compor uma distribuição geográfica contínua de impressões digitais de DNA – os comprimentos de microssatélites de DNA em cada um dos 16 loci – de todas as variedades de elefantes. Este método se baseia no fato de que as populações vizinhas tendem a ser geneticamente mais parecidas que as mais distantes. Validamos o procedimento SCAT usando-o para determinar a origem de amostras de fezes obtidas de locais conhecidos.

Anatomia de um Carregamento
Inicialmente usamos o nosso método de indicação de DNA para um caso que exemplifica a magnitude e complexidade do comércio moderno de marfim. Em fevereiro de 2002, funcionários do governo de Malavi, trabalhando junto com as autoridades da Zâmbia e a força-tarefa do Acordo Lusaka, invadiram uma fábrica familiar de entalhe de marfim, que ostensivamente utilizava marfim adquirido legalmente do governo de Malavi. No entanto, a fábrica tinha muito mais marfim que a documentação legal mostrava e, de fato, poucas amostras continham o selo governamental necessário. O confisco incluiu vários pedaços de marfim que exibiam buracos dos quais haviam sido extraídos pequenos cilindros. Acredita-se que esses cilindros sejam sinetes de assinatura hanko destinados ao Japão (os japoneses tradicionalmente preferem sinetes cilíndricos, enquanto os chineses preferem os quadrados).
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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