Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
[continuação]

Os registros detalhados recuperados na operação em Malavi descreveram 19 carregamentos independentes feitos por esses traficantes durante os nove anos anteriores. Todas as cargas identificavam o mesmo remetente, os mesmo códigos de embarque (seja pedra-sabão ou serragem) e a mesma origem. Quase todos tinham o mesmo destino. Um dos pedidos incluía um carregamento de 6,5 toneladas de marfim (registrado como pedra-sabão), que estava em um local escondido, aguardando a remessa.

Naquele mês de junho, as autoridades souberam rapidamente que o marfim que faltava estava sendo levado de caminhão para Beira, Moçambique, e carregado em um navio com destino a Durban, na África do Sul, onde seria transferido para uma outra embarcação para Cingapura. As autoridades locais foram notificadas do carregamento apenas quatro horas antes de sua chegada e confiscaram o contêiner. A carga incluía 532 presas, com o peso excepcionalmente grande de 12 kg por peça, e 42 mil selos hanko. Os sinetes eram cilíndricos, e seu diâmetro combinava com os buracos nos pedaços de marfim confiscados em Malavi. Várias presas confiscadas tinham a marca “Yokohama”, uma cidade portuária próxima a Tóquio.

Os documentos de embarque recuperados na operação em Malavi não listavam o peso de 18 outros carregamentos ilegais de marfim. Se supusermos que cada carregamento era semelhante em tamanho ao do confisco em Cingapura, juntos representariam cerca de 110 toneladas de marfim, ou aproximadamente o equivalente a 17 mil elefantes abatidos.

A enorme quantidade de contrabando confiscado foi um indicador marcante do crescimento do comércio ilícito de marfim. Também revelou o quanto dele é controlado por grandes organizações criminosas. O transporte de tamanha quantidade de marfim exige especialização no comércio de commodities, finanças internacionais e outros requisitos comerciais. O negócio demanda significativa infra-estrutura no Extremo Oriente, capaz de receber e processar toneladas de marfim, fábricas que possam produzir dezenas de milhares de hankos por ano, uma rede de marketing e distribuição e varejo para comercializá-los. Os milhões de dólares gerados pelas vendas de vem ser lançados ilegalmente por meio de canais legais de negócios e depois movimentados pelo mundo para pagar novos embarques. Além disso, o suborno de alto nível é evidente. Houve relatórios de caçadores usando grande volume de produtos de origem silvestre como moeda de barganha para as armas e a munição necessárias para manter os funcionários corruptos no poder.
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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