Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
[continuação]

E se o lucro é alto, o risco dos traficantes é baixo. Poucos grandes traficantes de vida silvestre são processados, porque o crime contra a Natureza geralmente é considerado de baixa prioridade entre os órgãos mantenedores da lei quando comparado com o terrorismo, o tráfico de drogas, o assassinato e os crimes financeiros. Virtualmente, ninguém envolvido no confisco de Cingapura foi processado, nem mesmo os agentes da alfândega que assinaram o documento declarando que o marfim era pedra-sabão. Em vários outros países, as penalidades para os que foram pegos são mais baratas que o pagamento de imposto por vendas.

Rápido e Eficiente
Embora os investigadores tenham fortes suspeitas de que o marfim confiscado em Cingapura tenha sido processado naquele local em Malavi, a análise do DNA foi necessária para mostrar que as amostras vieram da mesma fonte. Nossa pesquisa demonstrou que todo o marfim teve uma origem comum. As presas e os sinetes hanko do confisco em Cingapura, além dos pedaços de marfim apreendidos na fábrica de Malavi se originam de uma população de elefantes de savana que se concentra na Zâmbia. Uma conexão dos hankos com a mesma população das presas embargadas em Cingapura explica a ausência misteriosa de presas pequenas a médias durante a ação. As presas pequenas provavelmente foram retalhadas em hankos na fábrica de entalhe de marfim em Malavi. Quase que certamente, essa estratégia serviu para aumentar o valor do carregamento para o mercado japonês, pois historicamente os japoneses preferem presas grandes. Também indicam que animais de todas as idades foram vítimas desses caçadores. É preciso um número muito grande de elefantes jovens para fornecer marfim suficiente a fim de manufaturar 42 mil sinetes.

Esse cerco de 2002 ocorreu no mesmo ano em que a Zâmbia pediu à Cites permissão para a venda isolada de estoque de marfim ao Extremo Oriente. No entanto, a Cites acabou rejeitando a proposta, até certo ponto devido às suspeitas de que algum do marfim recuperado em Cingapura era originário da Zâmbia. Nossos resultados ajudaram a validar essa decisão.
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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