Reportagem
edição 87 - Agosto 2009
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A trilha de sangue do marfim
A brutal matança de elefantes africanos para retirada de marfim está pior agora que na década de 80. Novas ferramentas de investigação forense, baseadas na análise de DNA, podem denunciar os grupos criminosos por trás desse comércio violento
por Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens
[continuação]

As análises do marfim do confisco de Cingapura mostraram que, pela primeira vez, os caçadores tinham em vista populações específicas para a exploração intensiva. As populações foram atingidas rápida e eficientemente, presumivelmente para satisfazer pedidos específicos dos compradores. Essa descoberta contradiz a crença mais comum de que os traficantes empregavam um plano descentralizado de coleta de grande pedidos, para oportunamente garantir estoques de marfim conforme eles se tornassem disponíveis em toda a África. Também indicou que o uso de técnicas para concentrar o uso da lei em locais identificados provou-se uma estratégia viável contra a caça ilegal.

Negócios como Sempre
Nossos estudos mais recentes sobre os confiscos no verão de 2006, em Taiwan e Hong Kong, mostram apenas o quanto a destruição corrente reflete a matança da década de 80. As operações de 2006 também envolveram um alto nível de organização e muita intriga política. Nossa análise de DNA revelou que as presas vinham de uma área centrada no ecossistema de Selous na Tanzânia, espalhando-se para a Reserva de Caça do Niassa no norte de Moçambique. Parece que a Tanzânia mais uma vez se tornou o núcleo da atividade de caça ilegal. Esse é o país que abriga o Parque Nacional de Serengueti; o rio Gombe, onde Jane Goodall fez o seu famoso estudo sobre os chimpanzés; o monte Kilimanjaro; as montanhas do Arco Oriental, um local famoso mundialmente, à beira do Selous, que tem mais espécies endêmicas por quilômetro quadrado que qualquer outro lugar no mundo; e claro, a própria Reserva de Caça de Selous. A Tanzânia fez uma petição ao Cites para vender o marfim em estoque naquele mesmo ano, mas retirou o pedido em resposta às pressões internacionais.

Uma questão em aberto é se o marfim confiscado em Osaka também veio da Tanzânia. Enquanto o nosso laboratório analisava as apreensões de Taiwan e de Hong Kong, o governo japonês concluía o seu trabalho sobre o escândalo – a maior tentativa de contrabando de marfim da história japonesa. Em 2007, um tribunal japonês condenou um homem pela tentativa de contrabando de 2,8 t de marfim. Ele recebeu a suspensão da sentença e uma multa equivalente a menos que 1% da taxa alfandegária estimada para o valor do marfim no mercado varejista. Depois, o governo japonês incinerou o marfim, inviabilizando assim a análise do DNA. Porém, manteve cerca de 100 peças pequenas, cada uma com o peso médio de 0,3 g. Entretanto, essas peças não foram entregues e caso fossem, não temos certeza de que poderiam conter DNA sufi ciente para as análises. Antes, no mesmo ano, o Japão recebeu a aprovação final da Cites para a compra de marfim em uma venda legal, que ocorreria em 2008.
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Samuel K. Wasser, Bill Clark, Cathy Laurie, Celia Mailand e Matthew Stephens Samuel K. Wasser é professor de biologia e diretor do Center for Conservation Biology da University of Washington. Ele criou e vem coordenando os projetos forenses de DNA do marfi m. Bill Clark é diretor do Grupo de Trabalho da Interpol sobre Crimes contra a Vida Selvagem e funcionário da Secretaria da Natureza e dos Parques do governo israelense. Conduziu a aplicação desses métodos forenses em investigações criminais. Cathy Laurie, geneticista estatística da University of Washington, fez a análise estatística dos confiscos de Taiwan e Hong Kong. Duas outras pessoas contribuíram significativamente para o trabalho. Celia Mailand, pesquisadora científica do Center for Conservation Biology, que fez todas as análises de laboratório de DNA. Matthew Stephens, professor de genética humana e estatística da University of Chicago, desenvolveu toda a metodologia estatística e os programas usados nos projetos.
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