E m Paris, no dia 27 de agosto de 1783, Jacques Charles realizou uma façanha espantosa. Ele pairou a 915 metros de altura num balão de sacos de seda revestidos de borracha, cheios de hidrogênio gasoso, menos denso que o ar. Camponeses apavorados destruíram o balão tão logo ele retornou ao solo, mas Charles deu início a uma busca que continua até hoje: utilizar o hidrogênio, o elemento mais leve do Universo, no transporte.
Por vários motivos, o hidrogênio – queimado ou utilizado em células de combustível – é uma opção atraente para abastecer os automóveis do futuro. Diversas matérias-primas e fontes de energia (renovável, nuclear ou fóssil) podem ser utilizadas para produzi-lo. Além disso, o hidrogênio e o produto de sua combustão, a água, não são tóxicos e não poluem. Não há liberação de dióxido de carbono, um potente gás responsável pelo efeito estufa. A eficiência dos veículos movidos a célula de combustível é até duas vezes maior que a dos veículos atuais. O hidrogênio poderia, assim, ajudar a reduzir urgentes problemas sociais e ambientais, como a poluição do ar e seus riscos à saúde, a mudança climática global e a dependência da importação de petróleo estrangeiro.
Mas ainda não existe maneira totalmente segura e prática de abastecer um carro a hidrogênio. O hidrogênio contém três vezes mais energia que a gasolina por unidade de massa, mas atualmente é impossível armazenar o gás de forma tão compacta e simples quanto o combustível líquido convencional. Assim, é difícil transportar de forma segura e eficiente uma quantidade de hidrogênio a bordo que garanta autonomia e desempenho satisfatórios. É preciso resolver esse problema – ou seja, estocar hidrogênio suficiente para assegurar a autonomia mínima aceitável de hoje (cerca de 500 km) sem que o volume do tanque de combustível comprometa o espaço para os passageiros e a bagagem. O sistema de armazenamento tem de ser capaz de liberar o combustível com a velocidade necessária para a aceleração na estrada e operar numa faixa de temperatura exeqüível. O reabastecimento deve ser rápido e o preço do combustível precisa ser competitivo. As atuais tecnologias de armazenamento de hidrogênio estão muito aquém do ideal.
Pesquisadores da indústria automobilística em todo o mundo, assim como governos e universidades, dedicam consideráveis esforços à superação dessas limitações. O Acordo de Implementação do Hidrogênio da Agência Internacional de Energia, assinado em 1977, atualmente é a maior iniciativa internacional dedicada ao melhoramento dos sistemas de abastecimento e armazenagem de hidrogênio, contando com mais de 35 pesquisadores de 13 países. A Parceria Internacional de Economia Baseada no Hidrogênio, formada em 2003, agora inclui 17 governos comprometidos em desenvolver tecnologias de hidrogênio e de célula a combustível. E em 2005, o Departamento de Energia dos Estados Unidos criou o Projeto Nacional para Armazenamento de Hidrogênio com três centros de excelência e muitos esforços da indústria, universidades e laboratórios federais tanto em pesquisa básica quanto aplicada. Somente no ano passado, esse projeto forneceu mais de US$ 30 milhões para financiar cerca de 80 projetos de pesquisa. |