Reportagem
  
edição 24 - Maio 2004
Ameaça na Floresta Submersa
Mudanças climáticas põem em risco simbiose que sustenta recifes de coral
por Otávio César Cafundó de Moraes
Imagem aérea mostra a Grande Barreira de Corais australiana, um dos maiores aglomerados desses organismos no planeta
Por participarem em grande porcentagem da cadeia nutricional dos ecossistemas marinhos, os recifes de corais devem ter prioridade em questões de conservação

Os recifes de corais são considerados um dos ecossistemas mais afetados pela onda de aquecimento global. Acredita-se que essa mudança climática seja originada principalmente pela emissão de gases provocadores do efeito estufa, que intensifica os fenômenos naturais em áreas de menores latitudes, aumentando, por exemplo, a pluviosidade em locais onde chovia pouco e tornando mais secas regiões já relativamente áridas. No caso dos pólos, também um dos ecossistemas mais afetados, a diminuição das calotas (cerca de 10% da cobertura de gelo mundial já desapareceu desde 1900) expõe novas áreas de solo onde espécies exóticas proliferam. A elevação do nível dos mares já fez com que muitos países do Pacífico Sul perdessem territórios.

Recifes de corais são ecossistemas que se desenvolvem ao longo das faixas tropicais do planeta, onde a temperatura média das águas oceânicas é superior a 220C. Isso se deve ao fato de que a precipitação de carbonatos é favorecida dentro de uma estreita faixa de temperatura, determinada aparentemente pelas algas simbiontes que vivem associadas aos tecidos dos corais, também conhecidas como algas Zooxanthellae. São elas, também, as responsáveis pela maior parte da produção primária dentro de um recife de corais. Por se tratar de um ambiente extremamente estável ao longo do tempo, os organismos que lá se desenvolvem acabaram por evoluir para nichos extremamente específicos. São muito grandes as taxas de simbiose encontradas num recife de corais.

Tendo em foco os ecossistemas dos recifes, é possível verificar que a intensificação dos fenômenos climáticos em baixas latitudes pode tornar-se catastrófica para aqueles menos resistentes. O aumento da freqüência dos fenômenos conhecidos como El Niño causa enorme impacto sobre as populações marinhas. Esse fenômeno é caracterizado pelo aquecimento atípico das águas superficiais do Oceano Pacífico central, promovendo a interrupção dos processos de ressurgência, responsáveis pelo afloramento de água profunda, fria e rica em nutrientes que fertilizam as águas superficiais e dão suporte à produção de biomassa marinha. Essa bomba de fertilização de águas superficiais ocorre sobretudo na costa oeste dos continentes e é o principal sustento da cadeia alimentar. Com a diminuição da circulação oceânica, o aquecimento das águas superficiais se torna cada vez mais intenso, tendo como uma de suas conseqüências, globalmente, a elevação da temperatura das águas além do limite suportável pelos corais, provocando o branqueamento. Esse processo é fundamentado na perda de pigmentos e de algas simbiontes associados aos tecidos dos corais, tornando-os brancos, suscetíveis a doenças e até mesmo à morte.

Os fenômenos de branqueamento produzem um número crescente de vítimas nos recifes, que tiveram sua biodiversidade irreversivelmente afetada. Durante o maior evento de branqueamento, ocorrido em 1998 nos mares tropicais, cerca de um sexto das colônias do mundo pereceram.
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