Reportagem
  
edição 56 - Janeiro 2007
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Aplicações dos animais transgênicos
O aperfeiçoamento genético de animais para fins científicos, médicos e econômicos ganhou enorme ímpeto com a técnica da transgênese. Produtos originários de organismos transgênicos tendem a se tornar cada vez mais difundidos
por João B. Pesquero, Heloisa A. Baptista, Fabiana L. T. Motta e Suzana M. de Oliveira
[continuação]

O transplante de órgãos e tecidos de animais em seres humanos, ou xenotransplante, é foco de interesse por mais de um século. Existe carência mundial de órgãos para transplantes clínicos, e infelizmente muitos pacientes morrem na fila de espera. As vantagens do xenotransplante sobre os transplantes tradicionais incluem o suprimento ilimitado de órgãos e a conseqüente diminuição das filas de espera. Além disso, como o órgão a ser transplantado é coletado imediatamente, ele não é prejudicado por efeitos post-mortem, como hemorragia e alterações metabólicas.

Atualmente os pesquisadores desenvolvem porcos transgênicos cujos órgãos podem ser seguramente utilizados para transplante em humanos. Para isso, é preciso superar um difícil obstáculo: o sistema imunológico reconhece e destrói todas as células que não possuem marcadores específicos humanos na sua superfície, ocasionando o fenômeno da rejeição. Para contornar esse problema, foram criados porcos transgênicos portadores de um gene que codifica uma proteína da superfície de células humanas. Como resultado, esses porcos possuem órgãos contendo marcadores de células humanas, o que impede que componentes do sistema imune do receptor ataquem e destruam o órgão transplantado.

Paralelamente, outros grupos de pesquisa estudam uma estratégia diferente para minimizar a rejeição de órgãos na xenotransplantação. Ela consiste em eliminar do genoma do porco, pelo método de knockout, o gene que codifica a a -1,3-galactosiltransferase, uma enzima presente na superfície das células daquele animal que é reconhecida pelo sistema imunológico humano. Sem esta enzima, a primeira etapa na rejeição ao órgão transplantado não se deflagra.

Nas doenças degenerativas do sistema nervoso, o transplante de neurônios fetais de porcos representa uma terapia em potencial. Porcos transgênicos expressando uma molécula humana que inibe as células T imunossupressoras foram gerados. Neurônios de embriões que secretam a molécula in vitro foram transplantados em ratos e houve redução de 50% na resposta proliferativa. Esses dados mostram que neurônios de porcos transgênicos podem ser usados para testes pré-clínicos em xenotransplantação.
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João B. Pesquero, Heloisa A. Baptista, Fabiana L. T. Motta e Suzana M. de Oliveira são pesquisadores do Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais em Medicina e Biologia (Cedeme) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.
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