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Reportagem |
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| edição 56 - Janeiro 2007 |
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| Aplicações dos animais transgênicos |
| O aperfeiçoamento genético de animais para fins científicos, médicos e econômicos ganhou enorme ímpeto com a técnica da transgênese. Produtos originários de organismos transgênicos tendem a se tornar cada vez mais difundidos |
| por João B. Pesquero, Heloisa A. Baptista, Fabiana L. T. Motta e Suzana M. de Oliveira |
[continuação]
Em 1997, o primeiro bovino transgênico, a vaca Rosie, produzia leite enriquecido com a proteína humana lactoalbumina. Esse leite transgênico é mais nutritivo para humanos que o leite natural, e poderia ser introduzido na alimentação de crianças com carência de nutrientes específicos. Há também pesquisas em curso voltadas para a produção de leite transgênico contendo as proteínas necessárias para o tratamento de doenças como fenilcetonúria, enfisema hereditário e fibrose cística. Por exemplo, o Instituto A. I. Virtanen, da Finlândia, gerou um bovino contendo um gene cuja proteína correspondente promove o crescimento de hemácias em humanos.
Em razão do impacto e da complexidade ética da criação de animais transgênicos para o consumo humano, a Comissão do Codex alimentarius (Lei alimentar ou Código alimentar, em latim), estabelecida conjuntamente pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) e pela OMS (Organização Mundial da Saúde), está trabalhando em colaboração com vários países, dentre eles o Brasil, com o objetivo de criar normas de aplicação internacional visando a segurança de alimentos produzidos a partir desses animais.
Recentemente foi aprovada pela Agência Européia de Medicina a produção pioneira de antitrombina humana pela empresa americana GTC Biotherapeutics, valendo-se de cabras transgênicas como biorreatores. O novo medicamento se chama Atryn e será comercializado no próximo ano na Grã-Bretanha e em outros países europeus. A antitrombina é uma proteína presente no sangue com propriedades anti-coagulantes e antiinflamatórias, que pode ser utilizada no tratamento de portadores de uma doença genética rara conhecida como deficiência hereditária de antitrombina. A deficiência de antitrombina torna seus portadores vulneráveis a tromboses, que se caracterizam pela formação ou desenvolvimento de coágulos sangüíneos. Pelo fato de a antitrombina ser purificada do sangue humano, uma grande vantagem dessa nova tecnologia é evitar contaminações através do material dos doadores. Além dessa proteína, a mesma empresa já possui outros produtos que deverão em breve ser colocados no mercado, dentre eles a antitripsina alfa-1 humana recombinante, usada no tratamento de certas formas de enfisema, e uma nova vacina transgênica contra a malária. A empresa holandesa Pharming deverá produzir várias proteínas no leite de vaca para tratamento de doenças como o Rhucin, um inibidor de C1 esterase recombinante para o tratamento de angiedema hereditário; e a lactoferrina humana, uma proteína com propriedades antiinflamatórias, além de fibrinogênio e colágeno. Em 2001, dois cientistas da Nexia Biotechnologies, do Canadá, introduziram genes responsáveis pela produção de proteínas de teia de aranha nas células das glândulas mamárias de cabras lactentes. As cabras começaram então a produzir a seda no leite e, através da extração e manufatura dos fios de polímeros do leite, desenvolveu-se um material leve, flexível e resistente que poderia ser utilizado na confecção de uniformes militares, fios de microssutura para cirurgia e cordas de raquete de tênis.
No Brasil, nosso grupo de pesquisa, em colaboração com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Universidade de Brasília (UnB) e o Hospital de Apoio de Brasília, produziu no leite de camundongos transgênicos o fator IX humano, uma proteína responsável pela coa-gulação do sangue. Essa proteína é ausente nos hemofílicos, dificultando a coagulação nos portadores da doença. As pesquisas iniciais foram realizadas em camundongos, mas o objetivo final dos pesquisadores da Embrapa é desenvolver vacas clonadas transgênicas expressando o gene humano para esse fator no leite. |
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| João B. Pesquero, Heloisa A. Baptista, Fabiana L. T. Motta e Suzana M. de Oliveira são pesquisadores do Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais em Medicina e Biologia (Cedeme) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. |
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