Reportagem
  
edição 39 - Agosto 2005
As muitas faces de Marte
Um jipe encontrou um deserto antigo; o outro, sinais de um mundo de água. A diversidade do Planeta Vermelho rivaliza com a da Terra
por Philip R. Christensen
NASCER DO SOL SOBRE ARABIA TERRA, olhando para leste, na direção de Utopia Planitia: esta reconstrução artística de imagens orbitais mostra as margens de Vastitas Borealis, uma vasta planície em que devem ter existido alagamentos de canais antigos . Na direção do centro, o Sol projeta seus primeiros raios sobre a borda oeste da cratera Lyot
Muitas pessoas se aventuram no deserto por seu aspecto rude e simples, mas eu vou lá pela complexidade. As rochas do oeste do Arizona, onde trabalho, revelam uma das histórias mais intrincadas da Terra. Camadas de pedras calcárias de carbonatos, sinais de lama, areia de quartzo e lava solidificada mostram que nos últimos 600 milhões de anos essa área era um mar quente e raso, depois um pântano enlameado, então um vasto deserto de dunas quentes e brilhantes, depois uma camada de gelo glacial, e então um mar raso mais uma vez. Vulcões em erupção formaram ilhas como o Japão, que por sua vez foram arrastadas para 140 km além do continente ao longo de grandes falhas, inclinando as camadas de rocha na borda e cozinhando-as para criar mármore e sílex. Soerguimentos e erosão ao final produziram o cenário desértico que vemos hoje.

Esse tipo de reconstrução histórica detalhada foi por muito tempo impossível em Marte. Durante minha vida, o Planeta Vermelho se converteu de um ponto no céu noturno a uma terra de vulcões gigantescos, leitos de rios ressecados, lagos antigos e planícies de lava varridas pelo vento. Claramente, Marte tem uma das histórias mais gloriosas do Sistema Solar. No entanto, os cientistas foram capazes de reconstruir apenas um esboço impreciso dessa história. Por anos, debatemos questões fundamentais como: será que Marte já foi “quente e molhado”, como a Terra, ou “frio e seco” como a Lua, como se a história de um planeta inteiro pudesse ser resumida a um bordão.

Ao longo da última década, no entanto, entramos na terceira grande era da exploração de Marte. As duas primeiras foram observações telescópicas do século XIX e o reconhecimento inicial por espaçonaves nos anos 1960 e 1970. Missões orbitais e de solo recentes mapearam a topografia do planeta, determinaram sua mineralogia, fizeram imagens de sua superfície em detalhes suficientes para possibilitar interpretações de processos geológicos e combinaram dados orbitais com a realidade vista do chão. Marte se tornou finalmente um lugar que posso estudar como geólogo, usando suas rochas, minerais e formações para elaborar uma narrativa.

O que nós descobrimos é que Marte passou por uma diversidade incrível de processos e condições ao longo de sua história. O planeta que estamos começando a conhecer teve ambientes que iam do ultra-seco ao ensopado ou coberto por neve e gelo. Rótulos simples não funcionam mais. Em vez de “quente” ou “frio”, perguntamos: quão quente? Quão molhado? Por quanto tempo? Onde? As respostas que surgem estão ligadas ao que impele tantos de nós a estudar o planeta vermelho: seu potencial para abrigar vida, agora ou no passado.
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Philip R. Christensen é professor da Universidade Estadual do Arizona em Tempe e especialista em composição da superfície marciana. Sua equipe de pesquisa desenvolveu os instrumentos de infravermelho da Mars Global Surveyor, da Mars Odyssey e dos Mars Exploration Rovers. Em 2003, recebeu da Nasa a Medalha de Sucesso Científico Excepcional por suas observações pioneiras de Marte no infravermelho. Desde os anos 1990, ele também usa observações de naves espaciais para estudar problemas ambientais e de desenvolvimento urbano na Terra.
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