Reportagem
  
edição 9 - Fevereiro 2003
Bases da pirâmide alimentar
Ao contrário do que recomendava a primeira versão do estudo, algumas gorduras são saudáveis e muitos carboidratos prejudiciais.
por Walter C. Willet e Meir J. Stampfer
Antiga pirâmide alimentar concebida pelo USDA tinha por objetivo transmitir a mensagem "gordura é ruim" e seu corolário "carboidratos são bons". Tais afirmações estão sendo questionadas
Em 1992, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apresentou oficialmente o Guia da Pirâmide Alimentar, com a intenção de ajudar o público a fazer opções dietéticas que manteriam a saúde e diminuiriam o risco de doenças crônicas.

As recomendações logo ficaram famosas: as pessoas deveriam diminuir o consumo de gorduras e óleos, mas comer de 6 a 11 porções diárias de alimentos ricos em carboidratos complexos - pão, cereais em flocos, arroz, massas, etc. A pirâmide alimentar também recomendava quantidades generosas de verduras, legumes (inclusive a batata, outra fonte abundante de carboidratos complexos), frutas e laticínios, e pelo menos duas porções diárias do grupo das carnes e feijões, que incluía a carne vermelha ao lados das aves, peixes, nozes/castanhas, legumes e ovos.

Mas, mesmo quando a pirâmide estava sendo construída, os nutricionistas já sabiam há muito tempo que alguns tipos de gordura são essenciais para a saúde e podem diminuir o risco de doenças cardiovasculares. Além disso, os cientistas encontraram poucas provas de que o maior consumo de carboidratos é benéfico. Desde 1992, um número crescente de pesquisas indica que a pirâmide tem erros crassos. Ao promover o consumo de todos os carboidratos complexos e a exclusão de todas as gorduras e óleos, a pirâmide dá uma orientação errada. Em síntese: nem todas as gorduras fazem mal, e nem todos os carboidratos fazem bem. Agora, o Centro de Promoção e Política Nutricional do USDA está reavaliando a pirâmide, mas não se espera que essa revisão esteja concluída antes de 2004. Nesse ínterim, construímos uma outra pirâmide que reflete melhor a compreensão atual das relações entre alimentação e saúde. Alguns estudos indicam que pôr em prática as recomendações da pirâmide revista pode diminuir significativamente o risco de doenças cardiovasculares.

Como é que a pirâmide original teve tantos erros? Em parte, os nutricionistas foram vítimas do desejo de simplificar exageradamente suas recomendações. Os pesquisadores sabiam há décadas que a gordura saturada - abundante na carne vermelha e nos laticínios - aumentam os níveis de colesterol do sangue. O colesterol está associado a alto risco de doenças cardiovasculares (ataques cardíacos e outras enfermidades causadas pelo bloqueio das artérias do coração). Na década de 60, estudos de alimentação controlada, onde os participantes consumiam dietas cuidadosamente prescritas durante várias semanas, confirmaram que a gordura saturada aumenta os níveis de colesterol. Mas os estudos mostraram também que a gordura poli-insaturada - encontrada em óleos vegetais e peixes - reduz o colesterol. Por isso as diretrizes alimentares das décadas de 60 e 70 enfatizavam a substituição da gordura saturada pela poli-insaturada, e não a exclusão total da gordura. A duplicação subseqüente do consumo de gordura poli-insaturada entre os norte-americanos provavelmente contribuiu muito para que os índices de doenças cardiovasculares nos Estados Unidos durante as décadas de 70 e 80 caíssem pela metade.
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Walter C. Willet e Meir J. Stampfer são professores de epidemiologia e nutrição da Harvard School of Public Health. Willet é catedrático de nutrição da faculdade e Stampfer dirige o departamento de epidemiologia. Willet também é professor da Harvard Medical School Ambos seguem o que pregam, comendo bem e fazendo exercícios regulares.
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