Reportagem
  
edição 47 - Abril 2006
Bom para os animais, bom para nós
Diminuir o sofrimento animal pode gerar testes de segurança mais rigorosos.
por Alan M. Goldberg e Thomas Hartung
Cary Wolinsky
Em 1999, um coelho de 2 metros de altura, com orelhas caídas e olhos tristes,acompanhou o candidato à presidência dos Estados Unidos Al Gore durante toda a campanha eleitoral. O crime de Gore: como vice-presidente, ele havia iniciado um programa de testes de toxicidade química que causaria o sofrimento ou a morte de quase 1 milhão de animais. Para muitos, no entanto, o programa parecia absolutamente necessário.

Dois anos antes, o grupo Defesa Ambiental divulgara a existência de dados sobre a segurança de apenas 25% das 100 mil substâncias químicas usadas, informação que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e o Conselho Americano de Química confirmaram. Gore havia reunido ativistas ambientais, reguladores e fabricantes a fim de iniciar um programa para avaliar a segurança mínima de 2.800 substâncias produzidas ou importadas pelos Estados Unidos em quantidades de até 500 mil toneladas. Um web site divulgaria os resultados obtidos.

O coelho gigante enfatizava uma verdade: a cada ano, milhões de animais são sacrificados em testes de toxicidade, e novos programas poderiam aumentar esse número. A EPA listou cerca de 80 mil substâncias cujos dados básicos de segurança deveriam ser obtidos com prioridade; além disso, sua ambiciosa Iniciativa de Saúde das Crianças busca examinar fenômenos como os efeitos de longo prazo da exposição do feto a produtos químicos. Outro projeto da agência é estudar as conseqüências neurológicas de chumbo, mercúrio e outros venenos para a reprodução e o desenvolvimento.

Do outro lado do Atlântico, o programa para Registro, Avaliação e Autorização de Substâncias Químicas (Reach) avaliará a segurança de 30 mil substâncias produzidas ou comercializadas na Europa. Em 2001, o Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido calculou que esse programa exigirá US$ 11,5 bilhões, 40 anos e mais de 13 milhões de animais. No total, os programas existentes estimam empregar centenas de milhões de animais e dezenas de bilhões de dólares apenas para determinar a segurança das substâncias. E todos os anos, a indústria acrescenta milhares de novas substâncias a essa lista.

Os autores deste artigo pertencem a uma pequena comunidade de cientistas espalhada por indústrias, universidades e governo que há décadas procura resolver o conflito entre segurança e humanidade. O programa de Gore nos deu a chance de mostrar nossas propostas. A pedido da Defesa Ambiental, um de nós (Goldberg) reuniu cientistas das universidades Johns Hopkins, Carnegie Mellon e Pittsburgh para investigar como o programa poderia atingir seus objetivos com número menor de animais.
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Alan M. Goldberg e Thomas Hartung Goldberg é doutor em farmacologia pela Universidade de Minnesota e professor de toxicologia da Universidade Johns Hopkins, onde dirige o Centro de Alternativas para Testes em Animais. É editor da série Alternative methods in Toxicology, participa de várias comissões, tendo recebido diversos prêmios, incluindo o da Sociedade de Toxicologia.

Hartung é doutor em farmacologia bioquímica pela Universidade de Konstanz, Alemanha, e doutor em toxicologia pela Universidade de Tübingen. Foi diretor do Centro de Transferência de Tecnologia de Steinbeis e atualmente dirige o Centro Europeu para a Validação de Métodos Alternativos. Goldberg é consultor da Xenogen Corporation em Alameda, Califórnia; o teste alternativo de pirogênio de Hartung foi licenciado por um grupo sem fins lucrativos para os Laboratórios Charles River em Massachusetts.
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