Reportagem
edição 84 - Maio 2009
Campos silenciosos
Um conjunto de fatos ainda não dimensionados, mas que deve incluir de ácaros a vírus, e pesticidas agrícolas, está diminuindo a sonoridade do vôo de abelhas e outros polinizadores, produzindo um efeito que os pesquisadores estão chamando de distúrbio do colapso de abelhas
por Diana Cox-Foster e Dennis VanEngelsdorp
CHARLES KREBS
Dave Hackenberg ganha a vida transportando abelhas européias: ele coloca as colméias no caminhão e segue de campo em campo, polinizando culturas tão diversas quanto melões na Flórida, maçãs na Pensilvânia, mirtilos no Maine e amêndoas na Califórnia, movimentando-se ao longo da Costa Leste e, com freqüência, de costa a costa.

Repetindo a rotina dos últimos 42 anos, no outono de 2006, ele migrou com a família e as abelhas da casa de verão, no centro da Pensilvânia, para o abrigo de inverno na Flórida central. Os insetos haviam acabado de cumprir a obrigação, polinizando floradas de abóbora na Pensilvânia e agora pegariam o último fluxo de néctar dos picões pretos na Flórida. Segundo Hackenberg, quando ele verificou os polinizadores, a colméia “fervia” de insetos. Porém, ao retornar um mês depois, fi cou horrorizado. A maioria das colônias restantes sofreu perdas de inúmeras operárias. Restaram apenas as operárias jovens e a rainha, que pareciam saudáveis; mais da metade das 3 mil colméias estava completamente vazia, embora não houvesse abelhas mortas à vista. “Era como uma cidade fantasma”, contou Hackenberg quando nos telefonou buscando uma explicação para o desaparecimento misterioso.

Imediatamente, nós e outros pesquisadores organizamos uma equipe de trabalho interdisciplinar que, em dezembro de 2006, descobriu o fenômeno e mais tarde denominou-o distúrbio do colapso das colônias, ou CCD em inglês. Curiosamente, as colônias de Hackenberg pararam de morrer na primavera seguinte, mas na época apenas 800 dentre as originais 3 mil colônias sobreviveram. Conforme Hackenberg trocava informações com outros colegas de todo o país, ficou evidente que não estava sozinho. Uma pesquisa conduzida por nossa equipe, na primavera de 2007, revelou que um quarto dos apicultores americanos sofrera perdas semelhantes, e mais de 30% de todas as colônias foram perdidas. No inverno seguinte a mortandade recomeçou e se expandiu, chegando a 36% dos apicultores americanos. Relatos de grandes perdas também surgiram da Austrália, Brasil, Canadá, China, Europa e outras regiões. Não há dados recentes ainda, mas alguns apicultores relatam que houve colapso de colônias neste inverno também.

Essa perda de abelhas foi o sinal de alerta, pois um terço da produção agrícola mundial depende da abelha européia, a Apis mellifera – espécie adotada universalmente pelos apicultores de países ocidentais. As enormes fazendas de monocultura demandam intensa atividade polinizadora por curtos períodos do ano, papel que outros polinizadores, como abelhas silvestres e morcegos, não conseguem desempenhar. Apenas a A. mellifera organiza exércitos de polinizadores praticamente em qualquer época do ano, onde quer que o tempo seja ameno e haja flores a visitar.
DAVID YELLEN
DAVE HACKENBERG foi o primeiro apicultor a alertar os entomologistas americanos sobre o desaparecimento súbito e inexplicável de operárias, indicador do que hoje é conhecido como o distúrbio do colapso das colônias, no outono de 2006. Até o fim do inverno, mais de 60% das suas três mil colônias estavam dizimadas; nos Estados Unidos a perda foi de 30%.
Nosso grupo eliminou várias causas prováveis para o CCD e encontrou diversos fatores que poderiam contribuir; mas nenhum responsável único foi identificado. As abelhas com CCD tendem a ser infestadas por patógenos múltiplos, incluindo um vírus recém-descoberto, mas essas infecções parecem secundárias ou oportunistas – da mesma forma que a pneumonia mata um paciente aidético. O quadro que surge agora apresenta uma condição complexa, que pode ser desencadeada por diversas combinações de fatores. O combate ao CCD pode não ser fácil; talvez seja preciso um maior cuidado com o meio ambiente e mudanças a longo prazo nas práticas agrícolas e apicultoras.

Mesmo antes do distúrbio do colapso das colônias, as abelhas sofreram vários males que reduziram sua população. A quantidade de colônias de melíferas em 2006 era menor que a metade existente em 1949. No entanto, os apicultores não se lembram de ter visto perdas tão sérias quanto as ocorridas nos invernos de 2007 e 2008. Embora provavelmente o CCD não provoque a extinção das abelhas, poderá levar muitos apicultores a desistir de seus negócios. Se devido a isso, a técnica e o conhecimento dos apicultores diminuir muito, mesmo quando o CCD for finalmente superado, cerca de 100 culturas podem ficar sem polinizadores – e a produção em larga escala de certas culturas poderá se tornar inviável. Ainda teríamos milho, trigo, batatas e arroz, mas muitas frutas e legumes que consumimos rotineiramente – como maçãs, mirtilos, brócolis e amêndoas – poderão se tornar alimentos de privilegiados.

Florescimento Silencioso
Quando Hackenberg inicialmente nos contou sobre as abelhas desaparecidas, nosso primeiro pensamento se voltou para os ácaros varroa. Esses parasitas agressivos são responsáveis pela queda de 45% do número de colônias de abelhas cultivadas entre 1987 (quando foram introduzidos nos Estados Unidos) e 2006. As fêmeas adultas de varroa se alimentam da hemolinfa, o sangue das abelhas. Os ácaros também são portadores de viroses e inibem a resposta imunológica dos hospedeiros. Hackenberg, como tantos apicultores especializados, já tinha vasta experiência no combate aos ácaros e tinha certeza de que os sintomas dessa vez eram diferentes.

Um de nós (vanEngelsdorp) fez autópsia nos insetos remanescentes de Hackenberg e encontrou sintomas nunca observados anteriormente, como o tecido cicatricial em órgãos internos. Os testes iniciais também detectaram alguns dos costumeiros suspeitos de doença nas abelhas. No conteúdo estomacal foram encontrados esporos de nosema, parasitas fúngicos unicelulares, que provocam disenteria nas abelhas. No entanto, a contagem de esporos nessas e outras amostras posteriores de melíferas não foram tão altas para explicar as perdas. A análise molecular das abelhas de Hackenberg, feita por outro membro do grupo (Cox-Foster) também demonstrou níveis surpreendentes de infecções virais de vários tipos conhecidos. Mas não se encontrou nenhum patógeno nos insetos que pudesse explicar a escala do desaparecimento.
SCIENTIFIC AMERICAN
SEM AS ABELHAS muitos alimentos do café da manhã, à esquerda, seriam inacessíveis à maioria das pessoas, devido ao preço. A escassez afetaria principalmente várias frutas, além das geléias e conservas, amêndoas e até mesmo o leite, pois as vacas leiteiras, em regime de confinamento, exigem uma ração rica em proteína, que depende de polinizadores
Ou seja, as abelhas estavam doentes, mas cada colônia parecia sofrer de uma combinação diferente de enfermidades. Lançamos a hipótese de que algo comprometera o sistema imunológico dos insetos, deixando-os suscetíveis a vários tipos de infecções que as colônias saudáveis normalmente combatiam. E Hackenberg estava certo: os primeiros suspeitos, os ácaros varroa não estavam presentes em número significativo para explicar a mortandade repentina.

Na primavera de 2007 nosso grupo começou a fazer detalhadas pesquisas em todo o país sobre todos os aspectos de manejo de colônias, entrevistando técnicos que encontraram o CCD, além de outros que não detectaram o fenômeno. Essas e outras investigações descartaram várias outras causas prováveis; não se podia culpar nenhuma técnica de manejo de apicultura. Grandes apicultores comerciais foram tão atingidos – sofrendo grandes perdas –, quanto os de pequeno porte ou os criadores por hobby. Os sintomas afetaram tanto apicultores fixos quanto os migratórios; até mesmo alguns apicultores orgânicos acabaram atingidos.

Quando as reportagens na mídia começaram a narrar a mortandade, outras pessoas, não ligadas à apicultura, também manifestaram preocupação. Muitas delas ficaram ansiosas em compartilhar suas hipóteses quanto ao motivo do CCD. Algumas dessas propostas – como culpar a radiação de telefones celulares – se originaram de estudos sem uma estrutura séria. Outras hipóteses não foram sequer consideradas para testes, como alegações de que as abelhas teriam sido abduzidas por alienígenas.

Uma teoria aceita por muitas pessoas foi de que as abelhas podem ter sido envenenadas por pólen de culturas modificadas geneticamente, especificamente as chamadas culturas Bt, que contêm um gene da toxina de inseticida produzida pela bactéria Bacillus thuringiensis. Quando as lagartas nocivas se alimentam de culturas produtoras dessas toxinas, elas morrem. Mas já antes da infestação de CCD, as pesquisas demonstraram que a toxina Bt só se torna ativa no intestino de lagartas, pernilongos e de alguns besouros. O trato digestivo de abelhas melíferas e de muitos outros insetos não deixa a Bt agir.
Uma outra teoria popular, muito mais aceitável, culpa os venenos sintéticos. Os dois suspeitos principais são os acaricídeos – substâncias que os apicultores usam para manter os ácaros sob controle – e os pesticidas, tanto do meio ambiente quanto dos campos de cultura polinizados pelas abelhas. Até 2006, novos tipos de pesticidas substituíram as variedades tradicionais. Um tipo em especial, os neonicotinói des, foram responsabilizados por apicultores franceses e de outros locais, por prejudicar os insetos polinizadores. Essa classe de inseticidas imita os efeitos da nicotina, uma defesa natural que as plantas do tabaco lançam contra as pestes devoradoras de folhas, sendo mais tóxica a insetos que a vertebrados. Mas os neonicotinóides também entram no pólen e no néctar das plantas, não apenas nas folhas, e assim potencialmente podem afetar os polinizadores. As pesquisas iniciais indicam que os neonicotinóides diminuem a capacidade de as abelhas melíferas lembrarem como voltar à colméia, sinal de que podem contribuir para o CCD.

Nós e outros especialistas também suspeitamos que a defesa natural das abelhas pode estar enfraquecida por má nutrição. As abelhas, assim como os polinizadores selvagens, não têm mais o mesmo número ou variedade de flores disponíveis porque nós, humanos, tentamos “arrumar” nosso ambiente. Por exemplo, plantamos uma grande extensão de culturas sem deixar áreas com fl ores, mato ou cerca viva. Mantemos enormes gramados sem ervas como o trevo ou o dente-de leão. Mesmo as beiras de estradas e parques refletem o nosso desejo de manter as coisas arrumadas, sem mato. Mas para as abelhas e outros polinizadores, os gramados extensos são como desertos. A alimentação das abelhas que polinizam grandes áreas de uma cultura pode carecer de nutrientes importantes, comparados aos polinizadores que se alimentam de fontes variadas, como seria típico em um ambiente natural. Os apicultores vêm tentando administrar essa preocupação desenvolvendo suplementos de proteínas para a alimentação das colônias – embora os suplementos em si não tenham evitado o CCD.

Esforço Conjunto
Nossa força-tarefa centrou a investigação nessas duas vastas áreas – pesticidas e nutrição – além de outras possibilidades óbvias, de um patógeno novo ou recém-modificado ter provocado o CCD. Os testes sobre as três hipóteses dependiam da coleta de amostras – muitas amostras. Nós nos juntamos a Jeff Pettis, do laboratório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em Beltsville, Maryland, para conduzir essa tarefa que envolvia longos dias, muitos quilômetros na estrada e o desafio de coletar material suficiente para distribuir para toda a equipe. Sem abelhas mortas para estudar, decidimos coletar abelhas vivas de apiários que sofreram a infestação, baseados na premissa de que as sobreviventes poderiam portar a doença em estágio inicial. As abelhas foram coletadas em álcool para contagem de varroa e nosema. Os insetos, o pólen e a cera da colméia foram colocados em gelo seco e rapidamente enviados para os laboratórios na Pensilvânia e Maryland, sendo mantidos em refrigeradores e preservados para as análises químicas e moleculares.

Algumas amostras foram enviadas ao nosso colega David Tarpy, da North Carolina State University, que mediu o conteúdo protéico. Tarpy não encontrou diferença significativa entre os apiários que tinham CCD e outros aparentemente saudáveis. Seus resultados sugerem que o estado nutricional, em si, não explicava o CCD.
Muito mais surpreendente foi o resultado da pesquisa de nossa equipe sobre os pesticidas, para os quais convocamos a ajuda dos pesquisadores da Pennsylvania State University, Maryann Frazier, Jim Frazier e Chris Mullin e de Roger Simonds, químico do laboratório do USDA em Gastonia, Carolina do Norte. (Por coincidência, Simonds é apicultor.) Sua análise de amplo espectro, sensível a inseticidas, herbicidas e fungicidas, revelou mais de 170 substâncias diferentes. A maior parte das amostras armazenadas de pólen continha cinco ou mais tipos diferentes de compostos e algumas chegavam a ter 35. Embora tanto o nível quanto a diversidade de substâncias encontradas seja preocupante, nenhuma indicava estar por trás do CCD; às vezes, colônias saudáveis tinham níveis mais altos de algumas substâncias que as colônias afetadas.

Não foram detectados neonicotinóides nas amostras originais, mas esses e outros pesticidas ainda não podem ser descartados. As colméias são dinâmicas e a nossa amostragem inicial não foi. É possível, se não provável, que as abelhas atingidas pelo CCD tinham sido prejudicadas por substâncias químicas ou por uma mescla de substâncias que não ficaram evidentes à época da coleta de amostras.

Nossas tentativas de identificar uma nova doença infecciosa – ou nova linhagem de uma antiga –, que poderia estar na raiz do CCD, inicialmente pareciam não levar a lugar nenhum. Nenhuma das doenças de abelhas conhecidas, bacterianas, fúngicas ou virais, poderia ser responsabilizada pelas perdas provocadas pelo CCD; assim, não tínhamos idéia do que deveríamos buscar.

Então, Cox-Foster, junto com o grupo de Ian Lipkin, da Columbia University (com a ajuda da empresa de biotecnologia 454 Life Sciences, em Branford, Connecticut), recorreu a um método sofisticado de detecção de microorganismos denominado metagenômica. Por essa técnica, os ácidos nucléicos (DNA e RNA) são coletados de um ambiente com vários organismos diferentes. O material genético é misturado e, em seguida, separado em partes pequenas o bastante para que as suas seqüências de código “de letras” possam ser decifradas. No seqüenciamento de genes convencional os pesquisadores usariam um software para reunir as partes novamente e reconstituir o genoma original do organismo. Mas na metagenômica os genes pertencem a organismos diferentes, assim o seqüenciamento produz um instantâneo de seqüências de vários organismos, até mesmo microscópicos, dentro de um ecossistema. A metagenômica vem sendo usada na pesquisa de ambientes como a água do mar e o solo, revelando uma surpreendente diversidade de microorganismos. Mas também pode ser aplicada para detectar microorganismos abrigados por organismos maiores, vivendo em colaboração (em simbiose), ou como infecção.
Naturalmente, a maioria das seqüências genéticas das nossas amostras é das próprias abelhas. Mas essas foram facilmente filtradas porque, felizmente, o genoma da abelha melífera acabou de ser seqüenciado. As seqüências que não se referiam às abelhas foram comparadas a seqüências genéticas pertencentes a outros organismos conhecidos. Pesquisadores especializados em análise molecular de organismos – incluindo de bactérias, fungos, parasitas e vírus – se juntaram à nossa equipe para identificar possíveis responsáveis.

O estilo de investigação usado, de pesquisa forense, expandiu muito o nosso conhecimento geral sobre as abelhas. Inicialmente, mostrou que todas as amostras (CCD e saudáveis) tinham oito bactérias diferentes que haviam sido descritas em dois estudos anteriores de outras partes do mundo. Essas descobertas sugerem que as bactérias podem ser simbiontes, talvez desempenhando um papel essencial na biologia da abelha no auxílio à digestão, por exemplo. Também encontramos duas espécies de nosemas, dois outros fungos e vários vírus de abelha.

Mas um vírus destacou-se, pois nunca fora identificado antes nos Estados Unidos: o vírus de paralisia aguda israelense, ou IAPV, descrito pela primeira vez em 2004 por Ilan Sela, da Universidade Hebraica de Jerusalém, durante um estudo para descobrir porque as abelhas morriam com convulsões paralisantes. Na nossa amostragem inicial, o IAPV foi detectado em quase todas – embora não em todas – as colônias com sintomas de CCD e apenas em uma delas, que não sofria de CCD. Mas essa forte correlação não é prova de que o IAPV provocou a doença. Por exemplo, o CCD pode ter deixado as abelhas excepcionalmente vulneráveis à infecção de IAPV.

Caso Encerrado?
Sabemos que existem pelo menos três linhagens diferentes do IAPV, e que duas infectaram as abelhas nos Estados Unidos. Uma das linhagens, provavelmente, veio da Austrália em 2005, depois que o governo no americano revogou a proibição de importação de melíferas, existente desde 1922. (A indústria de amêndoas fez lobby para a suspensão do banimento, a fim de evitar a séria falta de polinizadores na época da florada.) A outra linhagem provavelmente apareceu antes e é bem diferente. Sua origem é desconhecida, mas pode ter sido introduzida pela importação de geléia real (nutriente secretado pelas abelhas para alimentar as larvas) ou um suplemento de pólen, ou ainda pode ter entrado indiretamente no país em pesticidas para abelhas recém introduzidos no país. Os dados também sugerem que o IAPV existe em abelhas de outras partes do mundo, desenvolvendo-se em várias linhagens diferentes e, possivelmente, em constante mutação.
Em um esforço para resolver a questão do papel do IAPV, Cox-Foster fez experiências com abelhas saudáveis que foram previamente expostas ao vírus. Sua equipe colocou colméias repletas de abelhas em estufas e alimentou os insetos com água adocicada contendo IAPV. Com certeza, a infecção pareceu demonstrar alguns sintomas de CCD. Depois de uma ou duas semanas de exposição, as abelhas começaram a morrer. As abelhas não morriam perto das colméias, como se esperaria no caso de CCD. Assim, essas descobertas parecem apoiar a hipótese de que o IAPV pode provocar o CCD, ou pelo menos contribuir para o problema.

O empenho dos vários grupos para obter amostragens adicionais demonstrou, no entanto, que o IAPV já se espalhara muito nos Estados Unidos, e que nem todas as colônias infestadas tinham sintomas de CCD, implicando que nem o IAPV sozinho pode provocar a doença ou que algumas abelhas são resistentes ao IAPV. Em especial, um estudo iniciado em 2007 com o USDA, encontrou colônias de três apicultores migratórios e observou colônias infectadas com o IAPV sem o distúrbio.

O consenso crescente entre os pesquisadores é que fatores múltiplos – como a má nutrição e a exposição a pesticidas – podem interagir, enfraquecendo as colônias e deixando-as mais suscetíveis a um colapso provocado por vírus. No caso de nossas experiências nas estufas, o estresse de estarem confinadas em espaços relativamente pequenos pode ter sido suficiente para as colônias sucumbirem ao IAPV e morrerem com sintomas semelhantes ao CCD. Resultados mais recentes de monitoramento a longo prazo, identificaram outros fatores inesperados para a grande perda de colônias, incluindo o fungicida clorotalonil. Agora a pesquisa se centrada em como esses fatores se relacionam com o colapso de colônias.

Seria um alívio haver uma vacina ou tratamento para os vírus das abelhas, e do IAPV em particular. Infelizmente, as vacinas não funcionam nas abelhas, porque o sistema imunológico dos invertebrados não gera o tipo de proteção contra agentes específicos que as vacinas induzem em humanos e outros mamíferos. Os pesquisadores também estão começando a buscar outras abordagens, como a baseada na nova técnica de interferência no RNA, que impede o vírus de se reproduzir no interior de células da abelha. Uma solução a longo prazo seria identificar e criar abelhas resistentes ao vírus. Porém, essa tarefa pode levar anos, talvez tempo demais para evitar a saída de muitos apicultores dessa atividade.

Enquanto isso, muitos apicultores tiveram sucesso parcial em evitar a perda de colônias, redobrando o esforço na melhora da alimentação, mantendo as infecções e parasitas como a varroa e a nosema sob controle, e praticando a boa higiene. Em especial, a pesquisa demonstrou que a esterilização com raios gama, antes da reutilização de estruturas antigas para colméias, reduz o risco de colapso de colônias.

O homem precisa agir rapidamente para garantir que o antigo pacto entre flores e polinizadores permaneça intacto, salvaguardando nosso suprimento de alimento e protegendo o meio ambiente para as gerações futuras. Esse empenho permitirá que as abelhas continuem a polinizar e que a nossa alimentação continue rica em frutas e legumes – que agora parecem ser fáceis de obter.
CONCEITOS-CHAVE
- Milhões de colméias no mundo ficaram vazias com o desaparecimento misterioso das abelhas, colocando em risco cerca de 100 culturas que demandam polinização.

- As pesquisas apontam para uma doença complexa, na qual vários fatores, incluindo práticas agrícolas, deixam as abelhas vulneráveis a vários vírus.

- Parece que o cuidado com a higiene das colméias ajuda a prevenção; e a pesquisa com drogas antivirais também pode levar a possíveis soluções.
– Os editores
[A EXTENSÃO DA PERDA DE COLÔNIAS] - O IMPACTO NOS ESTADOS UNIDOS
JEN CHRISTIANSEN, FONTE: “A SURVEY OF HONEY BEE COLONY LOSSES IN THE U.S., FALL 2007 TO SPRING 2008”, POR D. VANENGELSDORP ET AL., NA PLOS ONE, VOL. 3, EDIÇÃO 12, ARTIGO E4071; DEZEMBRO, 2008
O distúrbio de colapso das colônias (CCD) voltou pelo segundo ano no inverno de 2007- 2008. Na primavera de 2008 foi feita uma pesquisa com os apicultores sobre o número de colônias que não sobreviveram àquele inverno. No país todo, 37% das colônias foram perdidas (comparado com a queda típica do inverno, de 15% a 25%); 60% das perdas foram atribuídas ao CCD. A maioria dos estados, onde havia informações disponíveis, foi atingida seriamente. Grandes perdas também foram registradas na Austrália, Brasil, Canadá, China e Europa.
CURIOSIDADES
- Estima-se que haja de 900 a mil apicultores comerciais nos Estados Unidos, com o manejo de 2,4 milhões de colônias.

- Mais de 100 tipos de culturas requerem a polinização de abelhas. O valor anual do trabalho das melíferas é de US$ 14 bilhões nos Estados Unidos e de US$ 215 bilhões no mundo todo.

- Em fevereiro passado, praticamente todas as colméias migratórias dos Estados Unidos foram levadas à Califórnia para polinizar as amendoeiras.

- Mesmo antes do CCD, as abelhas desapareceram totalmente em certas regiões da China, talvez devido ao uso de pesticidas, forçando os donos de pomares a polinizar as árvores manualmente.
Polinizadores silvestres também adoecem
DERRICK DITCHBURN WWW.DEREILANATUREINN.CA
Mamangaba
As abelhas não são os únicos polinizadores a sofrer queda de população nos últimos anos. O Conselho Nacional de Pesquisa (NCR) dos Estados Unidos registrou que em 2006 houve tendência ao declínio de certas espécies de polinizadores silvestres no país, incluindo alguns insetos, mas também de morcegos e beija-flores. Essas espécies podem estar sendo atingidas por alguns dos desequilíbrios produzidos pelo homem, que tornam as abelhas vulneráveis ao CCD, como a introdução de novas doenças, o envenenamento por pesticidas e o empobrecimento de habitats, segundo o estudo da destacada autora, a entomologista May Berenbaum da University of Illinois.

Por exemplo, o Bombus occidentalis, uma mamangaba, desapareceu de uma região que vai da Califórnia à Colúmbia Britânica, provavelmente dizimada pela Nosema bombi, um microorganismo fúngico unicelular, segundo o trabalho de Robbin Thorp, entomologista da Davis, University of California. Ele avalia que o fungo pode ter se espalhado devido às mamangabas européias, que os agricultores americanos importaram para auxiliar na polinização de tomates e outras culturas em estufas.

Um estudo mais recente, publicado na Biological Conservation de janeiro, analisou dados históricos de Illinois e descobriu que quatro espécies locais de mamangabas desapareceram entre 1940 e 1960 – período que coincidiu com a intensificação da agricultura de larga escala no estado, com a conseqüente perda de habitats de pradarias, florestas e brejos.

A diminuição das poucas espécies de morcegos e beija-flores polinizadores – a ponto de os morcegos estarem em risco de extinção – pode estar relacionada a mudanças no habitat. Muitas migram para o México no inverno e os biólogos pressionam para conseguir a preservação de “corredores de néctar” – pastos apícolas –, onde os animais podem encontrar fl ores ao longo de suas rotas de migração.

Porém, de acordo com o NCR, os biólogos conseguem monitorar apenas algumas espécies (estimam-se 200 mil no mundo), e não se sabe muito sobre o estado de saúde da maioria. Várias colaborações são feitas pela internet, com a ajuda de cientistas-cidadãos. Os voluntários fotografam os polinizadores e os colocaram na rede, possibilitando aos pesquisadores identificar as espécies e registrar a sua localização.

Em 2008, pela primeira vez, o Congresso americano modificou a política agrícola, incluindo medidas protetoras para a polinização e reservando áreas de conservação, onde as flores silvestres podem crescer e fornecer néctar. Segundo Berenbaum, “foi realmente um marco”.
óDavide Castelvecchi, da equipe de redatores
[EM BUSCA DO MOTIVO] - Muitos suspeitos, nenhuma certeza
JEN CHRISTIANSEN (ilustrações)
ANDREW SYRED Photo Researchers, Inc. ( ácaro varroa); CENTRAL SCIENCE LABORATORY PHOTO RESEARCHERS, INC. ( larva de ácaro varroa); HEIDI & HANS-JURGEN KOCH Minden Pictures (abelha com pólen); CORTESIA DE BARTON SMITH JR., laboratório de pesquisas sobre abelhas do USDA (Nosema sp.); JEN CHRISTIANSEN (vírus de paralisia aguda israelense);
Pesquisadores investigaram praticamente todos os aspectos da vida das abelhas, na busca do responsável pelo colapso das colônias. O trabalho eliminou alguns suspeitos e apontou possíveis combinações de fatores que podem provocar ou contribuir para o CCD.

SUSPEITO: AGENTES QUÍMICOS
Chegam a 170 as diferentes substâncias sintéticas encontradas em colméias de colônias doentes ou não, e algumas amostras de pólen guardadas em alvéolos continham até 35 tipos. Embora nenhuma substância única pareça provocar o CCD, pesticidas podem enfraquecer a saúde das abelhas.

SUSPEITO: ÁCAROS VARROA
Ácaro, visto ao lado sugando linfa de uma pupa (um estágio intermediário entre a larva e o adulto), é a peste mais comum e destrutiva das abelhas. Mas as colônias em colapso não tiveram infestações mais significativas de ácaros.

SUSPEITO: PARASITAS
Algumas abelhas de colônias em colapso estão infectadas por um fungo unicelular como o Nosema apis, que invade o trato intestinal e provoca disenteria. Mas o nível de infecção é baixo para ser letal.

SUSPEITO: VÍRUS DE PARALISIA AGUDA ISRAELENSE
O IAPV provoca sintomas semelhantes ao CCD e ocorreu na maioria das colônias infestadas examinadas. Poderia ser o motivo do distúrbio, ou uma complicação, que é a causa definitiva da morte das abelhas.
[UMA SOLUÇÃO POSSÍVEL] - UM MEDICAMENTO PARA ABELHAS?
JEN CHRISTIANSEN (ilustrações)
Uma nova empresa de biotecnologia, de Miami, chamada Beelogics, vem desenvolvendo um medicamento antiviral que explora um antigo mecanismo imunológico denominado interferência no RNA. As células da maioria dos animais e plantas usam segmentos de RNA de curta interferência (siRNA) para inibir a formação de proteínas virais; neste caso, o siRNA projetado para visar o IAPV seria fornecido como alimento às colônias, como parte da dupla fita de RNA
OUTRAS FORMAS DE COMBATE
A restauração do equilíbrio no habitat dos polinizadores pode melhorar seu bem-estar geral, ajudando a evitar o colapso da colônia. Grandes faixas de monocultura ou gramados residenciais podem ser substituídos por áreas de mato e cercas vivas. As plantas que florescem em épocas diferentes do ano fornecem maior variedade na alimentação dos polinizadores, sustentando-os o ano todo.

A esterilização de colméias usadas com raios gama destruidores de DNA, antes de sua utilização para uma nova colônia, reduz o risco de reincidência de CCD, talvez por matar os microorganismos da cera.

Em geral, a pesquisa sobre o impacto de pesticidas nos polinizadores se concentra nos possíveis efeitos letais. É preciso mais pesquisas para determinar se certos pesticidas são capazes de estressar os insetos, embora as substâncias químicas não os matem imediatamente.
PARA CONHECER MAIS
On censors of the genome. Nelson C. Lau e David P. Bartel, em Scientifi c American, vol. 289, no 2, págs. 34-41, setembro, 2003.

Status of pollinators in North America. National Research Council. National Academies Press, 2007.

Decline of Bumble bees (Bombus) in the North American midwest. Jennifer C. Grixti, Lisa T. Wong, Sydney A. Cameron e Colin Favret, em Biological Conservation, vol. 142, no 1, págs. 75- 84, janeiro de 2009.

The Mid-Atlantic Apiculture Research and Extension Consortium: http://maarec.cas.psu.edu

The Xerces Society for Invertebrate Conservation: www.xerces.org
Diana Cox-Foster e Dennis VanEngelsdorp Diana Cox-Foster é professora de entomologia da Pennsylvania State University e co-diretora do grupo de trabalho sobre o distúrbio de colapso das colônias, composto de especialistas governamentais e acadêmicos. A pesquisa se concentra nas interações de patógenos hospedeiros. Cox atribui sua afinidade com as abelhas à sua bisavó, que foi apicultora comercial no Colorado, no início do século 20. A paixão de Dennis VanEngelsdorp pelas abelhas começou em um curso de graduação na University of Guelph, em Ontário, que o levou a vários projetos na região do Caribe e às funções acumuladas de apicultor na Pensilvânia e professor associado do departamento de entomologia da Pennsylvania State University.
© Duetto Editorial. Todos os direitos reservados.