Reportagem
  
edição 46 - Março 2006
Como deter a Malária
Erradicada de muitos países, a doença persiste em regiões pobres. Métodos de tratamento e prevenção podem acabar com ela
por Claire Panosian Dunavan
Randy Harris, fotomontagem de Jen Christiansen
A picada de um mosquito infectado inicia o ciclo mortal da malária - doença que mata entre 1 milhão e 2 milhões de pessoas anualmente, sobretudo crianças pequenas na África subsaariana
Há muitos anos, em Gâmbia, um menino de 2 anos chamado Ebrahim Samba quase morreu de malária. Hoje, ele se recorda disso toda vez que olha no espelho. Sua mãe - que já havia enterrado outros filhos antes - fez cortes em seu rosto numa tentativa desesperada de salvá-lo. O garoto sobreviveu e mais tarde veio a se tornar o diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Obviamente, não foi a sangria que salvou Samba. A questão é: o que foi então? Teria sido a variedade específica do parasita que o infectou, sua constituição genética ou imunológica, ou sua situação nutricional? Depois de séculos de combate à malária - bem-sucedido na maior parte do mundo - é impressionante o número de dúvidas que restam sobre esse velho flagelo. Contudo, há motivo para esperança. Pesquisadores estudam sobreviventes da doen-ça e rastreiam várias pistas para desenvolver vacinas. E o que é mais importante, recursos comprovadamente eficazes, como mosquiteiros para cama tratados com inseticida e outras estratégias antimosquito, aliadas a uma nova combinação de drogas com uma tradicional erva chinesa, estão sendo adotados com maior intensidade.

Nos próximos anos, o mundo precisará de todas as armas que puder recrutar contra a malária. Afinal, essa doença, além de matar, bloqueia o desenvolvimento econômico e humano. Combatê-la tornou-se um imperativo internacional.



Vilão Africano
Quatro espécies principais do gênero Plasmodium, o parasita da malária, podem infectar o homem, e pelo menos uma delas ainda abrange todos os continentes, com exceção da Antártida. Na virada do século passado, a Ásia registrava o maior número de doentes e mortes. Contudo, hoje a situação é mais grave na África subsaariana. A região é o maior santuário de P. falciparum - espécie mais letal para o homem - e abriga o Anopheles gambiae, a mais agressiva das cerca de 60 espécies de mosquito transmissor. Todo ano, 500 milhões de pessoas são infectadas pela malária, e entre 1 milhão e 2 milhões delas morrem - na maioria, crianças.

Além disso, nas áreas mais afetadas, a malária e suas complicações podem ser responsáveis por 30% a 50% das internações hospitalares e até 50% das consultas.

Nos casos mais graves da malária do tipo falcíparo, a febre e os calafrios típicos da doença são seguidos por uma anemia que provoca tontura, além de convulsões e coma. Por fim pode levar à falência do coração e pulmões, e à morte. Os sobreviventes podem ter seqüelas físicas e mentais ou debilidade crônica. Mas há pessoas como Ebrahim Samba, que se recuperam de uma enfermidade aguda sem conseqüências a longo prazo. Em 2002, em uma importante conferência sobre malária na Tanzânia, onde me encontrei com esse cirurgião que se tornou autoridade de saúde pública, esse paradoxo ainda intriga os pesquisadores, mais de meio século depois que Samba teve seu embate pessoal com a doença.
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Claire Panosian Dunavan Especialista em doenças tropicais e professora da Escola de Medicina David Geffen.
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