Reportagem
  
edição 36 - Maio 2005
Como os animais fazem negócios
Humanos e outros animais compartilham uma herança de tendências econômicas, incluindo cooperação, retribuição de favores e ressentimento com comportamentos desonestos.
por Frans B. M. de Waal
Macacos-prego compartilham comida da mesma forma que os chimpanzés e os humanos. Rara entre outros primatas, essa prática pode ter evoluído junto com a caça cooperativa, uma estratégia usada pelas três espécies. Sem compensação comum, não haveria caça conjunta. Aqui, um jovem macaco-prego pede por um pedaço, abrindo a sua mão próximo ao alimento que um adulto está comendo.
Assim como meu escritório não permaneceria vazio por muito tempo caso eu me mudasse, os bens imóveis da Natureza também estão sempre mudando de mãos.

Lares em potencial abrangem desde buracos cavados por pica-paus até conchas vazias na praia. Um exemplo típico é o mercado imobiliário entre caranguejos eremitas. Para proteger seu abdômen mole, cada animal carrega sua casa consigo - geralmente uma concha de gastrópode abandonada. O problema é que o caranguejo cresce, mas sua casa não. Os eremitas estão, portanto, sempre à procura de novas acomodações. No momento em que se mudam para uma concha mais espaçosa, outros formam fila para se apropriar da que ficou vazia.
Parece um caso de oferta e demanda, mas como ocorre em nível impessoal, poucos relacionariam os negócios do eremita com as transações humanas. As interações entre os caranguejos seriam mais interessantes se eles negociassem na linha do "você pode ficar com a minha casa se eu ficar com aquele peixe morto". Mas eles não são de negociar, e na verdade não teriam escrúpulos em despejar o dono da casa à força. Outros animais mais sociais fazem negócios, e seu modo de lidar com a troca de recursos e serviços nos ajuda a compreender como e por que o comportamento humano econômico pode ter evoluído.

Nova Economia
A economia clássica vê as pessoas como maximizadoras de lucros guiadas por puro egoísmo. Como Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII, afirmou: "Todo homem, supõe-se, procura naturalmente aquilo que é bom para si mesmo, ao passo que (procura) o que é justo e favorece a paz, apenas acidentalmente". Nessa visão ainda prevalecente, a sociabilidade é apenas uma reflexão tardia, um "contrato social" a que nossos ancestrais aderiram por causa de seus benefícios, não porque tinham alguma afeição mútua. Para a biologia, essa história imaginária está fora da realidade. Descendemos de primatas que viviam em grupos, o que significa que somos naturalmente equipados com o desejo de nos adaptar e descobrir parceiros com os quais possamos conviver e trabalhar. Essa explicação evolutiva está ganhando prestígio com o advento da economia comportamental, escola que enfoca o comportamento huma-no vigente, em vez de as forças abstratas do mercado, como guia para compreender as decisões econômicas. Em 2002 essa escola ficou conhecida quando dois de seus fundadores, Daniel Kahneman e Vernon L. Smith, dividiram o Nobel de Economia.

A economia comportamental animal é um campo que fornece suporte para novas teorias ao mostrar que tendências econômicas e preocupações humanas básicas - como reciprocidade, divisão de recompensa e cooperação - não são restritas a nossa espécie. Elas provavelmente evoluíram em outros animais pelas mesmas razões que em nós -para ajudar os indivíduos a otimizar a vantagem mútua sem minar os interesses compartilhados e que dão apoio à vida em grupo.

Vejamos o recente incidente na minha visita ao Centro Nacional Yerkes de Pesquisa em Primatas, de Atlanta. Ensinamos os macacos-prego a alcançar uma xícara com alimento puxando uma barra presa à bandeja onde ela estava. Ao deixarmos a bandeja muito pesada para ser puxada por um único indivíduo, demos aos macacos uma boa razão para trabalharem juntos.

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