Reportagem
  
edição 36 - Maio 2005
« 1 2 3 4 5 6 »
Como os animais fazem negócios
Humanos e outros animais compartilham uma herança de tendências econômicas, incluindo cooperação, retribuição de favores e ressentimento com comportamentos desonestos.
por Frans B. M. de Waal
[continuação]

Em uma ocasião, o ato de puxar foi realizado por duas fêmeas, Bias e Sammy. Sentadas em gaiolas contíguas, elas conseguiram alcançar a bandeja com as duas xícaras. Sammy, entretanto, apanhou sua xícara com tanta rapidez que acabou soltando a barra antes que Bias pudesse apanhar a sua. A bandeja correu para trás e ficou fora do alcance de Bias. Enquanto Sammy mastigava ruidosamente, Bias teve uma explosão de raiva e gritou alto por cerca de 30 segundos. Sammy, então, pegou sua barra de puxar e ajudou Bias a trazer a bandeja outra vez a seu alcance. Sammy não fez isso em benefício próprio, já que, agora, a sua xícara estava vazia.

O comportamento corretivo de Sammy parecia ser uma resposta ao protesto de Bias contra a perda de uma recompensa esperada. Essa ação está muito mais próxima das transações econômicas humanas do que aquela dos caranguejos eremitas, porque mostra cooperação, comunicação e cumprimento de uma expectativa, talvez até mesmo senso de obrigação. Sammy mostrou-se sensível à situação de com-pensação. Tal sensibilidade não é de surpreender, dado que a vida em grupo dos macacos-prego gira em torno da mesma interação entre cooperação e competição que caracteriza nossa própria sociedade.

Evolução da Reciprocidade
Animais e pessoas ocasionalmente se ajudam sem nenhum benefício óbvio para quem ajuda. Como teria evoluído esse comportamento? Se a ajuda é direcionada a um membro da família, a questão é fácil de responder. "O sangue fala mais alto", dizemos, e os biólogos reconhecem as vantagens genéticas para tal assistência: se o parente de alguém sobrevive, a probabilidade de os genes dessa pessoa se perpetuarem nas próximas gerações aumenta. Mas a cooperação entre indivíduos não aparentados não sugere vantagem genética imediata. Pëtr Kropotkin deu uma primeira explicação sobre isso no livro Mutual Aid, publicado em 1902. Se a ajuda é comum, argumenta, todos ganham - a chance de sobrevivência de cada um aumenta. Em 1971, Robert L.Trivers, então na Universidade Harvard, expressou o problema em termos evolutivos modernos com a teoria do altruísmo recíproco.

Ele argumentou que fazer um sacrifício por outra pessoa é recompensador se ela, depois, retribuir o favor. A reciprocidade resu-me o dito: "Eu coço suas costas se vo-cê coçar a minha". Será que os animais demonstram estratégias do tipo "olho por olho"? Macacos e grandes primatas formam coalizões; dois ou mais indivíduos conspiram contra um terceiro. E pesquisadores encontraram uma correlação entre quão freqüentemente A ajuda B e B ajuda A. Mas isso significa que os animais estão de fato a par dos favores dados e recebidos? Eles podem apenas dividir seu mundo entre "amigos", a quem dão preferência, e "não amigos", por quem demonstram pouca preocupação. Se tais sentimentos são mútuos, as relações serão mutuamente úteis ou inúteis. Tais simetrias podem responder pela reciprocidade relatada para peixes, morcegos vampiros (que regurgitam sangue para alimentar os companheiros), golfinhos e macacos.
« 1 2 3 4 5 6 »
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!