Reportagem
  
edição 36 - Maio 2005
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Como os animais fazem negócios
Humanos e outros animais compartilham uma herança de tendências econômicas, incluindo cooperação, retribuição de favores e ressentimento com comportamentos desonestos.
por Frans B. M. de Waal
[continuação]

Não é porque esses animais podem não estar a par dos favores dados e recebidos que eles carecem de reciprocidade. O problema é saber como um favor feito para o outro volta para o altruísta inicial. O que é exatamente esse mecanismo da reciprocidade? A preservação do registro mental é uma maneira de a reciprocidade operar, e ainda precisamos testar se os animais fazem isso. Até aqui, os chimpanzés são a exceção. Na floresta, atuam em grupo para caçar o macaco cólobo. Um caçador, após capturar a presa, normalmente separa o corpo em partes e o compartilha com o grupo. Nem todos, entretanto, conseguem um pedaço; até mesmo o macho de grau mais alto na hierarquia, se não tiver participado da caçada, pode mendigar em vão. Esse comportamento sugere reciprocidade: os caçadores parecem gozar de prioridade na divisão do espólio.

Para tentar descobrir quais mecanismos atuam aqui, exploramos a tendência desses macacos em compartilhar - que eles também mostram em cativeiro. Demos a um dos chimpanzés de nossa colônia uma melancia ou alguns ramos de folhas e o deixamos no centro de um grupo, logo seguido por grupos secundários próximos a indivíduos que tinham conseguido uma porção maior, até que todo o alimento tivesse sido distribuído a todos. Os chimpanzés não costumam pegar alimento dos outros à força - fenômeno conhecido como "respeito de posse". Os pedintes mantêm a mão aberta com a palma para cima, choramingam e lamentam, mas as agressões são raras. Se elas ocorrem, o animal que detém o alimento dá instruções para que os agressores deixem o círculo. Ele bate na cabeça dos agressores com um galho ou grita emitindo um som agudo até que o deixem sozinho. Independentemente do seu grau na hierarquia, quem tem o alimento controla seu fluxo.

Analisamos cerca de 7 mil situações como essa, comparando a tolerância do possessor a pedintes específicos. Temos registros detalhados sobre cuidados e catação de parasitas nas manhãs dos dias dos testes com alimentos. Se o macho principal, Socko, limpara May pela manhã, por exemplo, sua chance de ganhar ramos dela, à tarde, aumentava. Essa relação entre comportamentos do passado e do presente é geral.

Conexões simétricas não poderiam explicar esse resultado, já que o padrão variou de um dia para o outro. O nosso foi o primeiro estudo a demonstrar a contingência entre favores dados e recebidos. Além do mais, a troca de alimento por catação ocorria com parceiros específicos - a tolerância de May só beneficiou Socko, o único que a tinha limpado.

Esse mecanismo de reciprocidade requer memória de eventos prévios, bem como o avivamento da memória que induz ao comportamento de amizade.
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