Reportagem
  
edição 36 - Maio 2005
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Como os animais fazem negócios
Humanos e outros animais compartilham uma herança de tendências econômicas, incluindo cooperação, retribuição de favores e ressentimento com comportamentos desonestos.
por Frans B. M. de Waal
[continuação]

Como todas as fêmeas de primatas, as dos babuínos são irresistivelmente ligadas aos filhotes - não apenas aos seus, mas também aos de outras fêmeas. Elas emitem grunhidos amigáveis e tentam tocá-los. As mães, entretanto, relutam em deixar qualquer um segurar seus recém-nascidos. Para se aproximarem, as fêmeas interessadas limpam a mãe enquanto espreitam os bebês. Após uma sessão relaxante de catação, a mãe pode ceder ao desejo das outras fêmeas de olharem de perto. Essas, portanto, "pagam" para passar um tempo com o recém-nascido. A teoria de mercado prediz que o valor dos bebês deveria subir se há poucos nas redondezas. Num estudo com babuínos da África do Sul, Louise Barrett, da Universidade de Liverpool, e Peter Henzi, da Universidade de Lancashire Central, ambas na Inglaterra, descobriram que as mães com poucos filhotes cobram mais caro (um período maior de catação) do que as mães com muitos filhotes.

Situação parecida ocorre com os peixes limpadores da espécie Labroides dimidiatus, que se alimentam de parasitas dos peixes maiores. Cada limpador tem sua "estação de limpeza" num recife de coral para onde a clientela se dirige a fim de que ele faça seu trabalho. O limpador mordisca o parasita e o retira do corpo do cliente, das nadadeiras e mesmo do interior da boca. Algumas vezes, o limpador fica tão ocupado que os demais peixes têm de esperar em fila. Os clientes aparecem em duas variedades: residentes e visitantes. Os primeiros pertencem a espécies com pequenos territórios; eles não têm escolha senão ir até o seu limpador local. Os visitantes, por outro lado, ou controlam um território grande ou viajam bastante, o que significa que podem escolher entre várias estações de limpeza. Querem esperar pouco e que o serviço seja de qualidade e sem fraudes. Isso ocorre quando um limpador mordisca o corpo do cliente alimentando-se do muco saudável do seu corpo, o que espanta os clientes.

Pesquisas feitas por Redouan Bshary, do Max Planck, consistem principalmente em observações nos recifes de coral, mas também incluem experimentos em laboratório. Seus artigos parecem um manual de bons negócios. O visitante tende mais a mudar de estação de limpeza se o limpador o ignora por muito tempo ou o engana. Os limpadores parecem saber disso e tratam os visitantes melhor do que os residentes. Se um visitante e um residente chegam ao mesmo tempo, o limpador quase sempre dá preferência ao visitante. Como os residentes não têm para onde ir, ficam esperando sua vez. Os únicos que os limpadores nun-ca trapaceiam são os predadores, que têm uma contra-estratégia radical: engolir o limpador. Com os predadores, os limpadores adotam sabiamente, nas palavras de Bshary, uma "estratégia cooperativa incondicional".

A teoria do mercado biológico oferece uma solução elegante para o problema dos "penetras", que ocupa os biólogos há muito tempo, pelo fato de os sistemas de reciprocidade serem vulneráveis àqueles que tomam, e não aos que dão. Os teóricos assumem que os ofensores devem ser punidos, embora isso ainda tenha de ser demonstrado entre os animais. Em vez disso, é possível lidar com os trapaceiros de maneira mais simples.
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