Reportagem
  
edição 15 - Agosto 2003
Contando os últimos peixes
A pesca excessiva tem reduzido os estoques principalmente das espécies de grandes predadores a um nível sem precedentes, segundo novos dados. Se não administrarmos estes recursos, ficaremos apenas com uma dieta à base de cozido de águas-vivas e plâncton
por Daniel Pauly e Reg Watson
O excesso de pesca causou um importante declínio na complexidade das cadeias alimentares em mais de um nível trófico entre 1950 e 2000. O mar aberto normalmente tem poucos peixes
George Bank, a faixa de oceano relativamente raso na Nova Escócia, Canadá, costumava fervilhar de peixes. Segundo relatos do século 17, cardumes enormes de bacalhau, salmão, badejo e esturjão freqüentemente rodeavam os barcos. A história hoje é bem diferente. Traineiras arrastando redes do tamanho de campos de futebol literalmente rasparam o fundo do mar, deixando-o limpo e arrancando um ecossistema inteiro - incluindo o substrato de apoio, como as esponjas - junto com a pesca do dia. Bem acima na coluna d\\'água, grandes e longas redes apreendem os últimos tubarões, peixes-espada e atuns. A quantidade de espécies de interesse comercial capturadas de uma só vez está decaindo, e o tamanho dos peixes apanhados tem diminuído; grande parte deles sai da água sem ter tido tempo para se desenvolver. O fenômeno não se restringe ao Atlântico Norte. Ocorre por todo o globo.

Muitas pessoas têm a falsa impressão de que a poluição é responsável pelo declínio das espécies marinhas. Outras acham difícil acreditar que a redução de peixes realmente exista, pois ainda vêem montes de robalos chilenos e filés de atum em mercados locais. Por que a pesca comercial é vista como tendo pouco ou nenhum efeito sobre espécies capturadas? Suspeitamos que essa seja uma antiga e persistente percepção, de uma época em que se pescava em mar hostil para obter sustento, com barcos pequenos e equipamentos simples

Nossos estudos demonstram que não podemos mais pensar no mar como um farto provedor, com recursos inexauríveis em suas misteriosas profundezas. Ao longo dos últimos anos, coletamos e analisamos dados sobre a pesca mundial e formamos o primeiro quadro abrangente sobre o estado dos recursos marinhos alimentares. Observamos que alguns países, particularmente a China, têm registrado de modo superdimensionado suas capturas, encobrindo a tendência de queda na pesca mundial. Em geral, os pescadores têm de trabalhar longe da costa e a grandes profundidades, num esforço para manter os números do ano anterior e satisfazer à crescente demanda. Estamos convencidos de que a pesca exagerada e a pesca dos estoques distantes são práticas insustentáveis e ameaçam espécies importantes. Mas ainda não é tarde demais para pôr em prática políticas mundiais de proteção à pesca para as futuras gerações.

O Direito do Mar

Explicar como o mar chegou à situação atual requer um pouco de história. O oceano costumava ser área de livre competição, com ventos soprando as bandeiras de vários países que compe-tiam por peixes a várias milhas de casa. Em 1982, as Nações Unidas adotaram a Convenção do Direito do Mar, segundo a qual os países costeiros podem requisitar zonas econômicas exclusivas, alcançando 200 milhas marítimas em águas abertas. Essas zonas incluem as áreas continentais altamente produtivas de cerca de 200 metros de profundidade onde a maioria dos peixes vive a maior parte de suas vidas. A Convenção acabou com décadas - e em alguns casos até séculos - de brigas pelos territórios de pesca costeira, mas também atribuiu a responsabilidade pelo gerenciamento honesto da pesca marinha aos países costeiros. Infelizmente, não podemos apontar nenhum exemplo de país que tenha aprimorado sua responsabilidade nesse sentido.
1 2 3 4 5 6 7 8 »
Daniel Pauly e Reg Watson são pesquisadores de pesca no Projeto Sea Around Us em Vancouver. O projeto, iniciado e financiado pelo Pew Charitable Trusts, está situado no Fisheries Center da University of British Columbia e se dedica a estudar o impacto da pesca nos ecossistemas marinhos. Pauly desde cedo concentrou sua carreira na formulação de novos modos de pesquisa de pesca e gerenciamento nos países tropicais em desenvolvimento. Ele desenhou softwares para a avaliação dos estoques naturais de peixes e começou a "FishBase", uma enciclopédia "on line" de peixes do mundo. O interesse de Watson inclui a modelagem de pesca, visualização de dados e mapeamento computadorizado. Sua pesquisa atual envolve o mapeamento dos efeitos da pesca, a modelagem de técnicas de censo visual submarino e simulações por computador para otimizar a pesca.
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!