Reportagem
edição 69 - Fevereiro 2008
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Controvérsias sobre o flúor
Pesquisas recentes sugerem que o tratamento da cárie com fluoreto em excesso pode ser perigoso
por Dan Fagin
[continuação]

Ação no Organismo

O papel dos fluoretos, provocando uma doença e combatendo outra, tem sua raiz no poder de atração que os íons de flúor exercem sobre os tecidos do corpo que contêm cálcio. De fato, mais de 99% dos fluoretos ingeridos, não excretados em seguida, vão para os ossos e os dentes. Eles inibem o aparecimento das cáries por dois mecanismos distintos: no primeiro, os fluoretos que entram em contato com o esmalte – a camada dura e branca que recobre a superfície do dente – incrustam se nas estruturas cristalinas da hidroxiapatita, o principal componente mineral dos dentes e dos ossos. Os íons flúor substituem alguns dos grupos hidroxila nas moléculas de hidroxiapatita do esmalte e isso torna os dentes mais resistentes à ação do ácido que dissolve o esmalte. Esse ácido é excretado pelas bactérias da boca, quando consomem os restos de alimentos. No segundo mecanismo, os fluoretos da superfície dos dentes funcionam como catalisadores que aumentam a deposição de cálcio e fosfato, facilitando a reconstituição dos cristais de esmalte pelo organismo, dissolvidos pela ação das bactérias.

Os fluoretos apresentam um efeito bem diferente quando altas doses são ingeridas por crianças cujos dentes permanentes estão se desenvolvendo e ainda não nasceram. As principais proteínas no início da formação dos dentes são as amelogeninas, cuja função é regular a formação dos cristais de hidroxiapatita. Quando se forma uma matriz de cristal, as amelogeninas decompõem-se e são removidas durante a maturação do esmalte. Mas quando algumas crianças consomem altas doses de fluoreto, absorvidas pelo trato digestivo e depois transportadas pela corrente sangüínea até os dentes em formação, os sinais bioquímicos falham.

As proteínas permanecem dentro do dente que está germinando por um período maior do que o normal, criando assim falhas na estrutura cristalina do esmalte. Como resultado, quando os dentes com fluorose finalmente irrompem, muitas vezes apresentam coloração desigual, com algumas partes mais brancas que outras – efeito visual provocado pela luz refratária que incide sobre o esmalte poroso. Nos casos mais graves a superfície dos dentes fica marcada por manchas marrons. Tanto a alimentação quanto a genética podem influir no desenvolvimento da fluorose, mas o fator mais importante, sem dúvida, é a quantidade de fluoreto ingerido.

Com verbas subvencionadas pelo Instituto Nacional de Pesquisa Dental e Craniofacial, Levy resolveu determinar a quantidade de fluoreto que as crianças estavam consumindo e como isso estaria afetando seus dentes e ossos. Não há nenhum nível ótimo para a ingestão diária de fluoretos que seja universalmente aceito, ou seja, não há nenhum nível que maximize a proteção contra as cáries ao mesmo tempo que minimiza o risco de outras doenças. Mas o limite freqüentemente citado pelos pesquisadores varia de 0,05 a 0,07 mg de flúor por kg, de acordo com o peso da pessoa.
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Dan Fagin é professor associado de jornalismo e diretor do Science, Health and Environmental Reporting Program da New York University. Escreve sobre ciências e questão ambiental para o Newsday. Seus artigos sobre epidemiologia do câncer venceram o prêmio de Jornalismo Científico da AAAS em 2003. Fagin é co-autor do livro Toxic deception (Common Courage Press, 1999) e está trabalhando num livro sobre interações entre gene e ambiente e agrupamentos de casos de câncer infantil em Toms River, Nova Jersey.
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