Reportagem
edição 81 - Fevereiro 2009
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Darwin no Brasil - Encanto com a natureza e choque com a escravidão
Na passagem pelo Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, Darwin descobre um mundo novo de sedução e horrores
por Ulisses Capozzoli
[continuação]

“Deixando de lado a idéia da escravidão”, registra Darwin em seu diário, “tem alguma coisa deliciosa nesta vida patriarcal, tão absolutamente separada e independente do resto do mundo”. Ele se diverte com a idéia de um pequeno canhão ser disparado para anunciar a chegada de visitantes num ambiente tão isolado.

Na fazenda, Darwin se levanta antes de o Sol nascer para explorar o ambiente sem ser incomodado, e conta que, logo em seguida, chega aos seus ouvidos o canto dos escravos que iniciam o trabalho. Em locais como a Fazenda Sossego, anota “os escravos são felizes em comparação a outras propriedades e têm o sábado e domingo para trabalhar para si próprios, assegurando as necessidades familiares”.

De Sossego o grupo se dirige a uma propriedade situada junto ao rio Macaé, limite do cultivo agrícola naquela direção e onde o proprietário desconhece a área de suas terras. Darwin fica profundamente impressionado com a fecundidade da região e imagina a quantidade de alimentos que poderá produzir num futuro distante. A selva o fascina e as nuvens de vapor d'água que sobem das matas o deixam extasiado, mas daí também irá emergir uma imagem do terror.

Na fazenda junto ao rio Macaé Darwin relata um desencontro, que não detalha, e que por pouco não dividiu pelo menos 30 famílias de escravos, levando filhos e mulheres para venda no mercado carioca, depois de uma convivência de anos. Diz que interesses estritamente financeiros, e não humanistas, evitaram essa cruel separação. Ele suspeita que o proprietário da fazenda nem sequer possa ter se dado conta da brutalidade de seu “ato infame”.

O grupo cruzava um rio, provavelmente, o rio Macaé, conduzido por um negro, quando outra cena relacionada à escravidão chocou Darwin profundamente. O negro tinha alguma dificuldade de comunicação, o que fez com que Darwin tentasse comunicar- se com ele por mímica e outros sinais. Num desses movimentos, conta ele, suas mãos passaram próximo ao rosto do homem, levando-o a acreditar que Darwin estava enraivecido por alguma razão e iria golpeá-lo. O negro abaixou imediatamente as mãos, semicerrou os olhos e dirigiu-lhe um olhar temeroso. Darwin relata o profundo sentimento de surpresa, desconforto e vergonha que se apoderara dele e que jamais iria esquecer.
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Ulisses Capozzoli Editor de Scientific American Brasil, é jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo.
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