|
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Reportagem |
|
|
| edição 28 - Setembro 2004 |
 |
|
| Diversidade aos pedaços |
| Levantamento mostra os perigos que a fragmentação de ecosistemas em áreas pequenas e isoladas traz para a fauna e a flora brasileiras. |
| por Reinaldo José Lopes |
 |
|
 |
| Borda de fragmento de floresta seca no vale do rio Paranã (interior de Goiás). Esse tipo de vegetação só ocorre hoje em poucas áreas isoladas do Brasil e, em terras goianas, perdeu dois terços de sua área na última década |
 |
Uma coisa é certa: retalhar os ecossistemas do planeta até que se tornem irreconhecíveis só pode tornar a Terra (e os seres humanos) mais pobres.
De fora, poucas coisas parecem mais impenetráveis do que uma floresta tropical. Até a luz parece se propagar com mais dificuldade em meio à escuridão da mata, e a vegetação ajuda a forjar seus próprios parâmetros de temperatura, umidade e dinâmica do solo. Para o que restou de vários dos ecossistemas tropicais mundo afora, porém, essa aparente invulnerabilidade é coisa do passado. Recortadas pela agropecuária e pela urbanização em pedaços muito menores do que os existentes originalmente, as áreas nativas que ainda resistem correm o risco de sofrer uma lenta transformação de fora para dentro, mesmo quando protegidas. O mundo à parte que era a floresta, isolado em trechos estanques, ameaça abrigar populações cada vez menos viáveis e geneticamente diversificadas de animais e plantas, até virar mera sombra de si mesmo.
Esse problema atende pelo nome técnico de fragmentação, e o estado atual de vários dos biomas brasileiros, como a Mata Atlântica e o cerrado, sugere que está mais do que na hora de começar a prestar atenção nele. Um levantamento sem precedentes, feito por mais de 120 pesquisadores e coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), mapeou os efeitos da fragmentação sobre boa parte dos ecossistemas do país, dos mangues do Norte e Nordeste às matas de araucária do Paraná, e ajuda a confirmar o que a teoria e as observações anteriores já sugeriam. "Grande parte dos projetos estava ligada à Mata Atlântica, o que até era de esperar, já que o saber científico no país se concentra nas regiões onde há remanescentes dela. Mas, com exceção da caatinga, conseguimos cobrir quase todos os biomas", avalia a engenheira florestal Denise Marçal Rambaldi, secretária-geral da Associação Mico-Leão-Dourado e uma das coordenadoras do levantamento.
De um lado, surpreendentemente, há boas notícias: mesmo áreas pequenas, com não mais do que 10 hectares, ainda podem servir de refúgio para uma diversidade adequada de pequenos mamíferos (basicamente roedores e marsupiais) na maltratada Mata Atlântica do Rio de Janeiro e da Bahia. O problema, no entanto, é que sem ação planejada essas ilhotas podem acabar sendo engolidas pelo que está em volta - e esse entorno, também mostram os estudos, pode causar modificações preocupantes na composição de espécies e no ciclo de vida de árvores e animais. Com apenas 8% da Mata Atlântica e 43% do cerrado sobrando hoje, a tendência é que boa parte desses biomas seja composta por áreas fragmentadas. Nesse caso, proteger apenas as áreas nativas propriamente ditas pode significar mero desaparecimento adiado.
"O buraco é mais embaixo", resume o secretário de Biodiversidade e Florestas do MMA, João Paulo Ribeiro Capobianco. "As políticas públicas ambientais foram concebidas com a noção de que um conjunto de áreas protegidas bastava. Mas a fragmentação de ecossistemas pode fazer com que essas áreas caminhem para a inviabilidade", afirma. As chances de sobrevivência de animais e plantas dependerão, em grande medida, da capacidade de transitar entre um fragmento e outro, e determinadas circunstâncias podem impedir isso quase completamente. "A monocultura de soja, por exemplo, cria espaços intransponíveis", diz Capobianco. |
|
1 2 3 4 5 6 7 » |
| Reinaldo José Lopes nascido em São Carlos, no interior de São Paulo, tem 24 anos e é jornalista científico free-lancer. Já colaborou com a Folha de S.Paulo e com as revistas Superinteressante e Pesquisa Fapesp. Tem interesse especial por evolução (principalmente a humana) e paleontologia. |
|
|
|
|
|
|
|
|