Reportagem
edição 37 - Junho 2005
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Ele, Ela
O cérebro masculino e o feminino são bem diferentes em termos de arquitetura e atividade. Pesquisas sobre essas variações podem levar a tratamentos mais adequados a cada sexo para problemas como depressão e esquizofrenia.
por Larry Cahill
[continuação]

Outras pesquisas estão encontrando diferenças anatômicas ligadas ao sexo no nível celular. Sandra Witelson, da Universidade McMaster, por exemplo, descobriu que as mulheres possuem densidade maior de neurônios em áreas do córtex do lobo temporal associadas ao processamento e à compreensão da linguagem. Ao contar os neurônios de amostras de autópsias, os pesquisadores notaram que, das seis camadas do córtex, duas apresentavam mais neurônios por unidade de volume em mulheres do que em homens. Descobertas semelhantes foram registradas posteriormente no lobo frontal. De posse dessas informações, os neurocientistas podem agora analisar se as diferenças sexuais no número de neurônios correspondem a diferenças na capacidade cognitiva - examinando, por exemplo, se o aumento na densidade do córtex auditivo feminino está relacionada ao melhor desempenho em testes de fluência verbal.

Inclinações Inatas
Essa diversidade anatômica pode ser causada, em grande parte, pela atividade dos hormônios sexuais que banham o cérebro do feto. Esses esteróides ajudam a coordenar a organização e as conexões cerebrais durante o desenvolvimento, e influenciam a estrutura e a densidade neuronal de várias regiões. Curiosamente, as áreas cerebrais que Goldstein descobriu diferirem entre homens e mulheres são aquelas em que os animais concentram o maior número de receptores de hormônios sexuais durante o desenvolvimento. A correspondência entre o tamanho da região do cérebro em adultos e a ação de esteróides sexuais no útero indica que pelo menos algumas das diferenças sexuais não resultam de influências sociais ou de alterações hormonais relacionadas à puberdade. Elas estão ali desde o nascimento.

Vários estudos comportamentais contribuem para aumentar as evidências de que algumas das diferenças sexuais no cérebro surgem antes mesmo que o bebê comece a respirar. Ao longo dos anos, cientistas demonstraram que, quando escolhem brinquedos, meninas e meninos tomam rumos diferentes. Os meninos tendem a gravitar em torno de bolas ou carrinhos, enquanto as meninas normalmente pegam bonecas. Mas ninguém sabia dizer com certeza se essas preferências eram determinadas pela cultura ou pela biologia cerebral inata.

Para tratar dessa questão, Melissa Hines, da Universidade da Cidade de Londres, e Gerianne M. Alexander, da Universidade A&M do Texas, recorreram aos macacos, nossos primos animais mais próximos. As pesquisadoras apresentaram uma variedade de brinquedos a um grupo de macacos vervet, incluindo bonecas de pano, caminhões e alguns itens neutros como livros ilustrados. Elas observaram que os macacos machos passaram mais tempo brincando com "brinquedos de menino" do que as fêmeas, e que as macacas passaram mais tempo interagindo com os que as meninas costumam preferir. Ambos passaram o mesmo período de tempo mexendo nos livros e em outros brinquedos unissex.
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Larry Cahill Completou doutorado em neurociência em 1990 na Universidade da Califórnia em Irvine. Depois de passar dois anos na Alemanha, usando técnicas de imagem para analisar a memória e o aprendizado em roedores, voltou a Irvine, onde hoje é professor do Departamento de Neurobiologia e Comportamento e pesquisador do Centro de Neurobiologia do Aprendizado e da Memória.
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