Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Escassez de alimentos e ameaças à civilização
O maior risco à estabilidade global é o potencial da crise alimentar de provocar a derrocada de governos em países pobres. Essa crise está sendo gerada pelo constante agravamento da degradação ambiental
por Lester R. Brown
[continuação]

O Problema dos Estados Falimentares
Mesmo um olhar superficial sobre os sinais vitais de nossa ordem mundial corrente acaba oferecendo sustentação, ainda que indesejável, à minha conclusão. E nós, no campo ambiental, entramos na terceira década de mapeamento de tendências de declínio do ambiente sem que tenhamos conseguido observar qualquer esforço significativo no sentido de reverter sequer uma delas.

Em seis dos últimos nove anos, a produção mundial de grãos declinou para níveis menores que o consumo, estabelecendo uma perda acumulada nos estoques. Quando a safra de 2008 começou, os estoques acumulados de grãos (carryover, a soma de grãos nos silos quando se inicia a nova colheita) garantiam 62 dias de consumo, algo próximo de um recorde negativo. Como conseqüência, os preços internacionais dos grãos no 2o e 3o trimestres do ano passado atingiram os níveis mais elevados já registrados.

Enquanto a demanda por alimentos cresce mais rapidamente que a oferta, a inflação do preço do alimento resultante exerce pressão severa nos governos dos países que já vinham balançando à beira do caos. De fato, mesmo antes da subida de patamar nos preços dos grãos, em 2008, o número de Estados falidos estava em expansão. Muitos de seus problemas decorrem do fracasso em reduzir o crescimento de suas populações. Mas se a situação alimentar continuar se deteriorando, nações inteiras irão à bancarrota a taxas sempre crescentes. Entramos em uma nova era geopolítica. No século 20, a maior ameaça à segurança internacional era o conflito das superpotências; hoje, são os Estados falimentares. Não é a concentração, mas a ausência de poder que nos coloca em risco.

Estados vão à falência quando governos nacionais não conseguem oferecer segurança pessoal, segurança alimentar e serviços sociais básicos, como educação e saúde. Eles freqüentemente perdem o controle de parte ou de todo o território. Quando governos perdem seu monopólio do poder, a lei e a ordem começam a se desintegrar. Depois de certo ponto, países podem tornar-se tão perigosos que funcionários do socorro alimentar deixam de ter segurança e seus programas são interrompidos; na Somália e Afeganistão, condições deterioradas já colocaram esses programas em perigo.
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Lester R. Brown Na definição do Washington Post, é “um dos mais influentes pensadores do mundo”. O Telegraph, de Calcutá, vem chamando Brown de “guru do movimento ambientalista”. Brown é fundador do Worldwatch Institute (1974) e do the Earth Policy Institute (2001), que é dirigido por ele hoje. É autor ou coautor de 50 livros; seu mais recente trabalho é Plano B 3.0: Mobilizando para salvar a civilização. Já recebeu muitos prêmios e homenagens, incluindo 24 títulos honorários e um MacArthur Fellowship.
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